Uma série de documentos desclassificados sobre a chegada ao território argentino e as atividades dos líderes nazistas, recentemente anexados ao Arquivo Geral da Nação, tem revelado que Josef Mengele, infame médico nazista e criminoso de guerra conhecido pelo apelido de 'Anjo da Morte', gozava uma vida pública e sem restrições naquele país.
Mengele entrou para a história pela tortura horrível que aplicou a sangue frio a numerosos prisioneiros no campo de concentração de Auschwitz (Polónia) durante o Holocausto. Diferentes documentos testemunham os atos atrozes que o criminoso nazista praticou em suas vítimas em nome de uma suposta ‘investigação médica e antropológica’.
Entre os procedimentos aplicados pelo 'Anjo da Morte' estão métodos de esterilização em massa, feridas deliberadamente infligidas aos prisioneiros para descobrir seus efeitos subsequentes e incontáveis cirurgias desnecessárias sobre humanos de diferentes idades que acabaram sendo mortos e dissecados sob sua tutela.
A Pasta Mengele
O arquivo criminal nazista esclarece como foi recebido na nação sul-americana e os múltiplos trâmites burocráticos que tramitou para obter a permanência pública e legal no referido país.
O corpus desclassificado contém fotografias, notas de inteligência, correspondência e vários registros de imigração e vigilância que demonstram que as autoridades encarregadas de recebê-lo sabiam quem ele era, onde morava, quem era sua companhia e o que fazia na Argentina.
Por exemplo, as autoridades estavam cientes de que Mengele havia entrado no país em 1949 fazendo uso de um passaporte italiano emitido em nome de Helmut Gregor, que mais tarde utilizou para obter documentação oficial como imigrante em 1950.
"Desde sua entrada na Argentina, o sujeito residia na propriedade Los Mengeles, usando o nome do Dr. Gregor [...], o sujeito afirmou que havia chegado à Argentina usando um nome diferente e distinto daquele de sua profissão [...]. Então, parece que, mantendo seu nome verdadeiro, o sujeito pertencia à Sociedade SS [...], durante o qual se mostrou nervoso, tendo declarado isso durante a guerra ele atuou como médico na SS alemã, na Checoslováquia, onde a Cruz Vermelha o descreveu como "criminoso de guerra", rezam trechos de sua reportagem de chegada destacados pela Fox News.
Vítima identificada e ignorada
O pacote de provas documentadas aponta para José Furmanski, um cidadão argentino nascido na Polônia que havia sido vítima do criminoso nazista, e cujo caso era conhecido pela inteligência da Argentina.
Apesar de testemunhar contra Mengele, a quem descreveu como a "sádico patológico" antes da imprensa, o ‘Anjo da Morte’ não foi preso.
"Eu conheci Mengele. Eu o conhecia bem. Vi-o muitas vezes no campo de Auschwitz, com o uniforme de coronel da SS e, ainda por cima, o casaco médico branco, Furmansaki afirmou na entrevista documentada: "Ele reuniu gêmeos de todas as idades no campo e os submeteu a experimentos que sempre terminavam em morte. Entrar crianças, idosos e mulheres... que horror! Vi-o separar uma mãe da filha e mandar uma das duas para a morte certa. Nunca esqueceremos isso", acrescentou.
O laboratório médico em Buenos Aires
A pasta Mengele também mostra um momento surreal quando, em 1956, o criminoso nazista obteve uma cópia legalizada de sua certidão de nascimento original na Embaixada da Alemanha Ocidental em Buenos Aires e pôde usar seu nome original sem quaisquer restrições, mais uma prova do confortável que sentiu em solo argentino.
Em outro ato de tolerância sem precedentes por parte das autoridades, está documentado que Mengele foi visitado por seu pai no país sul-americano e que até tinha uma empresa de laboratório médico instalada em Buenos Aires. O relatório do Governo argentino sobre as suas atividades comerciais demonstra de forma confiável que as autoridades conheciam detalhadamente a identidade e as atividades do criminoso no país.
"Informo a Sede que a partir das investigações realizadas a fim de cumprir a OB referenciada, verifica-se que José Mengele atuou como sócio nos laboratórios médicos ‘FADRO-FARM’ localizados na Rua Drysdale 3573, em Carapachay, Distrito Vicente López, e com escritórios, desde julho deste ano, na Rua Cramer 860, Capital. O sujeito, quem aparece como médico, ingressou na empresa em 10 de julho de 1958, como sócio contribuinte de 10.000 pesos de capital, e aposentou-se da empresa em abril de 1959", afirma o relatório.
Peregrinação pela América do Sul
Antes da patente vida aberta que Mengele levava abertamente na Argentina, foi a própria Alemanha Ocidental que emitiu uma ordem de prisão e extradição para os nazistas em 1959, um pedido que foi negado por um juiz local que argumentou que Mengele era vítima de "perseguição política".
Foi só depois de uma série de pressões a nível internacional em relação ao Governo argentino que o próprio Mengele decidiu deixar o país para se mudar para o Paraguai, onde viveu sob o protetorado do ditador Alfredo Stroessner, cuja família era originária da mesma cidade alemã que ele.
A pasta Mengele junta-se aos ficheiros que documentam a sua presença oculta no continente americano. Sabe-se que o criminoso nazista estava fugindo da Mossad, o serviço de inteligência estrangeiro de Israel, e que ele fez peregrinações pelas nações do Cone Sul por décadas.
Últimos anos no Brasil
Mengele teria feito a última paragem de sua peregrinação quando entrou clandestinamente no Brasil por volta de 1960. Sabe-se que ele foi ajudado por agricultores brasileiros alemães que simpatizavam com os nazistas e ajudaram-no a encontrar refúgio em diferentes casas rurais.
Durante as duas últimas décadas de sua vida, ele foi hospedado em propriedades das famílias alemãs Bossert e Stammer em São Paulo, e até se permitiu ao luxo para usar a versão portuguesa do seu nome verdadeiro, embora também tenha usado o pseudônimo de Peter Hochbichler.
Mengele morreu em 1979 depois de sofrer um derrame enquanto nadava no mar na cidade costeira de Bertioga, no Brasil. Seus restos mortais foram enterrados sob o nome de Wolfgang Gerhardt, outra das múltiplas identidades falsas, mas pistas diferentes levaram este último a desmascarar postumamente seus enganos covardes.
Via: https://temposdecolera.blogs.sapo.pt/a-vida-confortavel-e-em-liberdade-que-o-236046