Até há poucos anos, se alguém dissesse que Portugal e Rússia tinham um Acordo de Cooperação Militar desde 2000, metade do país franzia o sobrolho e a outra metade perguntava se isso incluía descontos em neve ou parcerias estratégicas em vodka artesanal. A verdade é que o acordo existia - discreto, modesto e tão útil à vida nacional quanto um casaco de peles numa tarde de agosto na Caparica.
Pois bem, Moscovo decidiu que este tipo de tratados “carecem de relevância estratégica no contexto atual”. Traduzido do "diplomaticês" para português corrente: "Obrigado, mas não estamos mais interessados. Cumprimentos ao Sol e à sardinha assada.”
Adeus a quê, afinal? Em teoria, o acordo permitia coisas seríssimas: consultas entre chefias militares, troca de informações político-militares, coordenação marítima e até a prevenção de incidentes no mar internacional. Podia haver um navio russo a passar algures pelo Atlântico e, graças ao tratado, havia um número telefónico português para ligar caso precisassem de açúcar, mapas ou simplesmente desabafar.
Na prática? Portugal nunca enviou fuzileiros para defender Vladivostok e a Rússia nunca apareceu com tanques a patrulhar a orla de Almada. Mas era simpático ter a porta aberta. Agora, com o tratado rescindido, Moscovo fecha oficialmente a cortina. E Portugal, solidamente sentado na NATO, responde com aquele encolher de ombros muito nosso, equivalente a: Pois... se calhar também já não íamos mesmo à vossa festa.
As possíveis vantagens que… ninguém aproveitou
Havia algum potencial, claro. Portugal podia ter ganho um raro canal militar direto com uma potência nuclear - sempre útil para uma conversa de última hora quando o mundo está em fogo. A Rússia podia manter um ponto de contacto com um aliado ocidental simpático, educado e especialista em rotas marítimas, cabos submarinos e logística atlântica.
Mas convenhamos: Entre a distância geográfica, o distanciamento político e a atual guerra na Europa, esse potencial era tão teórico quanto o famoso “verão russo” - que dura meia hora e inclui chuva.
O lado negativo do fim da relação
Ironicamente, o maior prejuízo talvez recaia na simbologia. Portugal perde um daqueles raros acordos internacionais que ninguém lembrava, mas que fazia bonito num folheto institucional.
A Rússia perde mais um pretexto para fingir que ainda tem pontes com o Ocidente para além dos cabos que transportam o gás liquefeito - o mesmo gás que continua a ser russo, só que agora comprado a terceiros, com mais escalas do que um "backpacker" da Erasmus.
E claro, ficamos sem o mecanismo formal de “prevenção de incidentes no mar”. O que é sempre um risco: imagine-se uma fragata russa cruzar as rotas do Santa Maria Manuela e ninguém saber qual dos dois deve pedir desculpa primeiro.
A grande perda estratégica: as praias da Caparica
No final, o título não mente: a Rússia diz adeus - não só ao tratado, mas a qualquer hipótese remota de vir fazer exercícios navais ao largo da Costa da Caparica. Uma pena. Talvez um cruzador russo pudesse apreciar o pôr-do-sol, o surf, a sangria e a sensação libertadora de não estar cercado de sanções. E quem sabe, até descobrir o milagre português: como é possível um país tão pequeno ter tanta praia e tão pouca paciência para guerras alheias.
A cooperação militar luso-russa termina como começou: com elegância burocrática, sem drama, e com mais impacto diplomático do que impacto real. A vida continua, os tratados ficam nos arquivos, e a Caparica segue tranquila - pronta para receber turistas, surfistas, e toda a gente, menos navios russos em visita oficial. Afinal, há despedidas que, se doerem, só se notará no... futuro.
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