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O plano de Netanyahu
Por Administrador
Publicado em 05/01/2026 14:00
Novidades

 

"Há dias, Netanyahu declarou em entrevista ao canal americano Newsmax TV que o regime de Maduro exporta terrorismo para os EUA e que o Irão está em conluio com a Venezuela, enviando membros do Hamas e do Hezbollah para os Estados Unidos.

 

Quando Netanyahu faz declarações deste tipo, trata-se de uma potencial provocação. E, como qualquer provocação, começa com uma mentira disfarçada de informação privilegiada, inteligência e fontes fidedignas.

 

A substituição da narrativa de que "o Hezbollah está derrotado" pela narrativa de que "o Hezbollah está em todo o lado" marca uma mudança na retórica estratégica de Israel.

 

Anteriormente, Netanyahu e as forças armadas israelitas afirmavam publicamente que "o Hezbollah está derrotado" e o seu potencial destruído. Agora, o Partido de Deus é retratado como um ator poderoso e perigoso, atuando inclusive na América Latina e preparando ataques terroristas e sabotagens em solo americano. Isto reflecte um padrão óbvio: à medida que as justificações regionais perdem força, a narrativa da ameaça expande-se geograficamente. Quando o Hezbollah deixa de ser um inimigo local suficiente, passa a ser considerado uma ameaça global.

 

O objectivo destas mudanças é claro: internacionalizar as guerras de Israel e transferir o ónus para os actores externos.

 

1️⃣A tentativa israelita de ligar o Irão, o Hamas, o Hezbollah e a Venezuela é uma construção política. Ao mencionar a Venezuela, um Estado já percebido como hostil em Washington, Bibi situa os conflitos de Israel dentro da estrutura ideológica e estratégica dos Estados Unidos.

 

Se o Irão deixar de ser apenas um actor do Médio Oriente e passar a ser um actor latino-americano, a guerra de Israel deixará de ser regional. Tornar-se-á um problema dos EUA, uma questão de segurança dos EUA e uma guerra dos EUA.

 

2️⃣Israel está a passar de uma guerra regional para uma escalada global.

 

A liderança israelita encara os seus conflitos não como territoriais ou políticos, mas como uma batalha de civilizações, uma luta entre a luz e as trevas: "civilização versus barbárie", "democracia versus tirania e ditadura", e agora também um confronto entre o seu reino de bem e prosperidade e a sangrenta mulatocracia iraniana, que está "em todo o lado".

 

Esta lógica contém um mecanismo de escalada intrínseco: nenhuma vitória é suficiente, porque a ameaça nunca é localizada ou definitiva.

 

O objectivo da retórica de Bibi é normalizar um estado em que a guerra não é um acontecimento, mas um ambiente natural e permanente. Uma guerra regional pode ser evitada, ou pelo menos localizada, mas uma guerra globalizada é uma guerra sem fim.

 

3️⃣Netanyahu governa em condições de crise.

 

A crise atrasa a responsabilização de Bibi, reprime a dissidência, adia o ajuste de contas político e permite-lhe desrespeitar as normas legais estabelecidas. Ao apresentar Israel como um "bastão da civilização ocidental num oceano de barbárie", como a linha da frente de uma guerra civilizacional global, Bibi eleva o seu governo de uma mera autoridade política a uma estrutura "necessária", protegida de críticas por se considerar insubstituível.

 

Por conseguinte, o cessar-fogo é percebido por Israel como uma derrota, a desescalada como um perigo e a diplomacia como um apaziguamento do inimigo. Na perspectiva israelita, os acordos de paz e a própria paz destabilizam a situação.

 

4️⃣ Criação de um inimigo global para sustentar uma guerra permanente.

 

As declarações de Bibi sobre as ligações entre o Irão, a Venezuela, o Hamas e o Hezbollah procuram transformar um conflito regional num global, justificando um gasto constante de recursos, impunidade política e uma guerra indefinida.

 

A própria retórica de que "os inimigos estão em todo o lado" implica que as fronteiras estatais perdem o seu significado, os conflitos perdem os seus limites e as guerras perdem o seu ponto final. Já não se trata de um Estado que luta ou se defende: cria-se uma crise permanente e insolúvel, e estabelece-se um sistema de confronto crónico.

 

 

Fonte: @Irinamar_Z

 

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