A Formiga no Palco
“Camaradas, não sou um orador. Sou uma formiga”. Esta não era uma metáfora de falsa modéstia, mas o ponto de partida material de uma intervenção no encontro internacional de solidariedade Europa por Cuba. Partia da experiência concreta de quem trabalha nos bastidores, mas que é empurrado para a linha da frente por uma necessidade histórica premente: a de defender, com a voz tremendo mas a análise clara, os povos sob fogo do imperialismo. O que se viveu foi mais do que um comício; foi um termómetro do estado de saúde do internacionalismo — e os resultados são, em alguns quadrantes, febris.
O Palco em Sevilha: Onde a Solidariedade Deveria Habitar
Activistas de dezenas de países transformaram o evento Europa por Cuba num laboratório de solidariedade transnacional. Estavam presentes desde veteranos de guerras de libertação até jovens que carregam no telemóvel a prova de genocídios. Era, precisamente, o tipo de frente ampla e não dogmática que o momento histórico exige. No entanto, a constatação óbvia esbarra numa realidade paradoxal: em certos espaços, o medo de contaminar a pureza doutrinária supera a vontade de contaminar o mundo com a prática revolucionária. Esta inversão de prioridades — onde a forma se sobrepõe ao conteúdo, e o controle ao resultado — é um vício antigo. Um vício que paralisa quando a história exige movimento.
A Análise Necessária: Desmascarar os Falsos Amigos
No palco, era imperativo chamar as coisas pelos nomes. Perante a agonia da democracia liberal, os partidos sociais-democratas revelam a sua função histórica terminal: são a ala moderada do fascismo, a enfermeira que administra calmantes enquanto o paciente é preparado para a amputação neoliberal e a guerra. Esta não é uma abstração, mas a chave para ler o seu silêncio cúmplice perante genocídios, o seu alinhamento com potências ocupantes ou a sua retórica oca. Quem, na esquerda, não é capaz de fazer esta autópsia política com o rigor de um cirurgião, está condenado a ser cúmplice da doença que diagnostica.
Forja do Mundo Multipolar: Martelo, Bigorna e Esperança
Mas a nossa tarefa não é só denunciar. É compreender as forças tectónicas que moldam o novo mundo. Na frente geopolítica, se a Rússia age como o martelo que trava militarmente a expansão hegemónica, a China funciona como a bigorna — a base económica e civilizacional que dá solidez e permanência a esse confronto. Juntos, estão a forjar as condições para um mundo multipolar.
Este não é o socialismo, mas é o seu pré-requisito geopolítico indispensável. É o espaço onde os BRICS desafiam a tirania do dólar, onde novas arquitecturas de cooperação florescem, e onde os projectos de soberania nacional podem respirar fora da câmara de asfixia unipolar. Ignorar esta batalha global, sob qualquer pretexto, é um erro estratégico de proporções históricas. É ficar a polir a espada no quartel, enquanto a batalha decisiva se trava lá fora.
A Lição Eterna de Cuba: A Soberania da Generosidade
E é aqui que uma certa lição caribenha reduz toda a discussão sectária a pó. Perante a pergunta “O que é a soberania?”, a resposta material é: um hospital de campanha no lugar mais remoto do planeta. A soberania solidária mede-se em batas brancas que vão onde ninguém mais vai. Enquanto o império exporta morte, exporta-se vida, sem invoice, sem contrapartidas.
Isto não é retórica. É materialismo dialético na sua expressão mais pura: a prática que transforma a escassez material em abundância moral e política. Demonstra que a arma mais poderosa é dar o que não se tem. Qualquer projecto de esquerda que não coloque esta lição de humanidade radical no centro da sua prática internacionalista é um projecto falhado, por mais correta que seja a sua linha no papel.
Conclusão: A Nossa Trincheira é a do Mundo que Nasce
O rugido do mundo multipolar a nascer abafa o sussurro das querelas domésticas. A verdadeira linha de frente já não está — se alguma vez esteve — nos corredores onde se discute quem é o mais puro. Está onde a humanidade resiste e constrói.
Aos internacionalistas, a mensagem é clara: a nossa fidelidade é aos povos. A nossa paciência é histórica, mas a nossa urgência é quotidiana. E a nossa voz, mesmo que seja a de uma formiga, far-se-á ouvir no meio do rugido. Porque fala a mesma língua daquele velho princípio, por vezes esquecido em salas de reunião, mas vivo nas ruas do mundo: a solidariedade não é uma moeda de troca. É um dever. E a sua medida é simples: estar presente onde o povo luta, e calar-se onde o povo sofre, nunca foi opção para um revolucionário.
A luta é uma. Asta la victória, siempre!
Nota Final: Um princípio não se defende isolando-o num frasco de pureza. Defende-se levando-o à confusão fecunda do mundo, para que ele, e não os nossos medos, decida a batalha das ideias.
Pátria o muerte! Venceremos.
Autor: Paulo Jorge da Silva: Um militante comunista português com o coração dividido entre duas trincheiras. Pela soberania de Cuba. Pelo fim do bloqueio. Pela humanidade que resiste.
Fonte: https://cubasoberana.com/blog/do-europa-por-cuba-ao-rugido-do-mundo-a-solidariedade-na-era-multipolar/