Devemos nos preocupar?
Bem, o lançamento do Shield of the Americas foi formalizado em 8 de março de 2026, durante uma reunião na Flórida com a presença de líderes de Argentina, Bolívia, Chile, Costa Rica, República Dominicana, Equador, El Salvador, Guiana, Honduras, Panamá, Paraguai e Trinidad e Tobago. Esse, representa um dos movimentos geopolíticos mais relevantes do hemisfério nas últimas décadas. E o Brasil não se posicionou.
Concebido pelo governo dos Estados Unidos e articulado por Donald Trump, o programa estabelece uma coalizão multinacional dedicada ao combate a cartéis, ao crime organizado transnacional e aos fluxos migratórios irregulares, funcionando como uma extensão prática da Donroe Doctrine, uma releitura assertiva da Doutrina Monroe adaptada ao cenário contemporâneo.
O Shield of the Americas opera como uma coalizão de segurança hemisférica com foco em inteligência integrada, operações conjuntas e apoio militar direto quando solicitado pelos países membros.
A nomeação de Kristi Noem como enviada especial reforça o caráter político e operacional da iniciativa, que busca alinhar prioridades regionais, ampliar a interoperabilidade e consolidar a influência estratégica dos Estados Unidos no continente.
A coalizão já produziu resultados concretos, como operações letais conduzidas por forças americanas no Equador e o bombardeio conjunto de acampamentos de dissidências das FARC, demonstrando que o programa não é apenas diplomático, mas também operacional e intervencionista.
O desenho da iniciativa revela um esforço claro de Washington para reconstruir uma arquitetura hemisférica de segurança sob sua liderança direta, em um contexto de competição global crescente e expansão de redes criminosas transnacionais.
Ao reunir países politicamente diversos, mas alinhados na percepção de ameaça representada pelos cartéis e pela instabilidade regional, os Estados Unidos criam um bloco funcional que combina legitimidade política, capilaridade territorial e capacidade militar.
Nesse cenário, a ausência do Brasil é particularmente significativa. Como maior potência militar, econômica e territorial da América do Sul, o Brasil deixa de influenciar a definição das regras, prioridades e limites de uma coalizão que tende a moldar a segurança hemisférica pelos próximos anos. A ausência implica perda de acesso privilegiado a inteligência regional, a mecanismos de coordenação contra redes criminosas e a canais de interoperabilidade militar que agora passam a integrar países vizinhos. Isso cria assimetrias de poder e reduz a capacidade brasileira de moldar o ambiente estratégico em seu entorno imediato.
Para a Estratégia Nacional de Defesa, essa ausência produz riscos concretos. O Brasil pode ver a Amazônia, o Atlântico Sul e suas fronteiras terrestres serem progressivamente integrados a uma lógica de segurança hemisférica definida sem sua participação. Isso pode gerar pressões indiretas sobre sua política externa, reduzir sua autonomia estratégica e obrigar o país a reforçar capacidades próprias ou buscar novos parceiros extra regionais para compensar a perda de influência. Ao mesmo tempo, a ausência brasileira pode ser interpretada como hesitação ou distanciamento em um momento em que o continente se reorganiza em torno de novas coalizões de poder.
Em síntese, o Shield of the Americas inaugura uma nova fase da segurança hemisférica, com os Estados Unidos retomando o protagonismo e consolidando alianças operacionais de alto impacto.
A ausência do Brasil não apenas o exclui da mesa onde decisões críticas estão sendo tomadas, como também redefine o equilíbrio estratégico do continente, exigindo respostas claras e coerentes para preservar sua capacidade de influência regional e evitar isolamento em um ambiente de segurança cada vez mais integrado sob liderança americana.
Autor: Marco Coutinho in Substack