Donald Trump descobriu a maneira mais simples de vencer uma guerra: declará-la vencida na televisão. Segundo ele, o Irão estava "no fim da linha", sem marinha, sem força aérea, sem controle aéreo. Os Estados Unidos "circulam livremente pelo país". Em resumo, o Irão tinha-se tornado uma espécie de campo de golfe estratégico onde Washington podia passear sem ser incomodado entre os ataques aéreos.
Só existe um problema: a realidade.
Comecemos pela marinha iraniana, que Trump afirma ter "destruído". Uma afirmação estranha, visto que o próprio Pentágono reconhece há anos que o Irão possui uma das forças navais assimétricas mais perigosas do Golfo. O Instituto Naval dos EUA destaca regularmente que a Guarda Revolucionária Islâmica (IRGCN) opera centenas de lanchas de ataque rápido, mísseis antinavio e minas capazes de paralisar o tráfego no Estreito de Ormuz. Por outras palavras: exatamente o oposto de uma frota "destruída".
Em relação à suposta força aérea "inexistente", a Agência de Inteligência de Defesa, no seu relatório sobre o poderio militar do Irão, destaca que o país possui centenas de aeronaves e, mais importante, uma densa rede de defesa aérea que combina sistemas russos e baterias nacionais. Embora isso possa não ser suficiente para competir com a Força Aérea dos EUA, é mais do que bastante para complicar qualquer campanha aérea prolongada.
Trump também afirma que Washington está "a agir livremente" no Irão. Essa é uma perspectiva interessante sobre geografia militar: até ao momento, nenhuma força terrestre americana está a operar em território iraniano. Mesmo o CENTCOM refere-se cautelosamente a "operações na região", e não a um passeio turístico por Teerão.
A passagem mais curiosa continua a ser sobre petróleo. Trump sugere que o Tesouro dos EUA compre contratos futuros para manter baixos os preços do petróleo bruto. O problema é que o Departamento do Tesouro dos EUA não tem essa função. Os mercados de petróleo dependem principalmente da produção global, das reservas estratégicas e das decisões da OPEP. Imaginar o Tesouro manipulando os mercados futuros para controlar o petróleo é mais ficção financeira do que política energética.
Mas a contradição mais flagrante aparece em outro lugar.
Se a vitória anunciada por Trump fosse realidade, então uma pergunta óbvia surgiria: por que ameaçar o Irão com o Armagedom todos os dias?
Porque se o inimigo está verdadeiramente "destruído", sem marinha, sem força aérea e "no fim da linha", não se promete a sua "destruição total" diariamente. Declara-se o fim da guerra e volta-se para casa.
Mas está acontecendo exatamente o oposto. Trump afirma que o Irão está "virtualmente destruído", enquanto simultaneamente promete "terminar o trabalho" e exige rendição total. Duas narrativas incompatíveis.
Essa contradição não é acidental. Trata-se de uma antiga tática de comunicação em tempos de guerra. A vitória é proclamada para tranquilizar a opinião pública, enquanto a ameaça apocalíptica é mantida para justificar a escalada do conflito.
Entretanto, a análise em Washington é bem menos triunfante. O Serviço de Pesquisa do Congresso destaca que o Irão ainda possui "o maior arsenal de mísseis balísticos do Oriente Médio". Até mesmo o Secretário de Estado Marco Rubio admite que Teerão mantém "capacidades significativas em mísseis e drones".
Resumindo: o Irão não está de joelhos. Está travando uma guerra de desgaste.
Mas na versão hollywoodiana vendida por Trump, o inimigo não tem mais exército, a marinha foi dizimada, a força aérea foi aniquilada e a economia iraniana aguarda educadamente a rendição final.
É a versão da Marvel para a geopolítica: espetacular, simplificada e totalmente desvinculada da realidade.
@BPartisans