Uma ferramenta bem afiada na caixa diplomática dos Estados Unidos é esfregar o nariz de seus Estados vassalos na poeira ocasionalmente para lembrá-los de que são uma forma de vida inferior, ao mesmo tempo em que proclama ao mundo inteiro que, uma vez Estado vassalo, sempre Estado vassalo. A sabotagem do gasoduto Nord Stream da Alemanha em setembro de 2022 é um exemplo descarado. Mais recentemente, a Índia também vem sendo submetida pelos EUA a um tratamento severo semelhante.
Declarações e comentários excepcionalmente grosseiros saíram da boca de funcionários do governo Trump, exigindo que a Índia se alinhasse ao ditame americano de encerrar suas importações de petróleo da Rússia. O pretexto era que o comércio de petróleo da Índia gerava renda adicional para a Rússia, o que ajudava a financiar a guerra em curso do Kremlin na Ucrânia.
O governo Trump sabia que se tratava de um argumento manifestamente absurdo, mas a decisão deliberada tinha um objetivo triplo: primeiro, reverter a curva ascendente do comércio entre a Rússia e a Índia e minar as relações entre os dois países neste período de transformação da política internacional; segundo, substituir o petróleo russo por suprimentos dos EUA (a preços muito mais altos) no lucrativo mercado indiano, que se espera que seja um grande consumidor de energia nas próximas décadas e, assim, também obter controle sobre a segurança energética da Índia, o que, naturalmente, tem enormes implicações estratégicas; e, terceiro, demonstrar que a ostentação das atuais elites governantes indianas, exibindo uma roupagem ultranacionalista e sua autoproclamação de um Estado civilizacional — “Vishwaguru” [mestre do mundo] e tudo mais — é pura farsa, e a autonomia estratégica e as políticas externas independentes que o governo indiano afirma ter são, na realidade, jargão pomposo.
Em termos simples, os EUA expuseram a atual elite governante indiana como fraudadores e elementos compradores — basicamente, covardes e cínicos. A certa altura, quando o teatro de Trump atingiu o auge, ele chegou a se gabar de que poderia “acabar” com a carreira política do primeiro-ministro Narendra Modi.
É humilhante até mesmo lembrar o que todos os altos funcionários de Trump, como o secretário do Tesouro Scott Bessent, o secretário de Comércio Howard Lutnick e o conselheiro sênior para comércio e manufatura Peter Navarro, gritavam aos quatro ventos quase que diariamente para ameaçar o governo Modi e menosprezar a Índia. Em tudo isso, o aval de Trump nunca esteve em dúvida — uma estratégia calculada para abalar o moral da elite governante indiana.
Da mesma forma, Trump, um grande praticante da “Ilusão da Verdade” — “Repita uma mentira vezes suficientes e ela se tornará verdade”, citação frequentemente atribuída ao nazista Joseph Goebbels —, esforçou-se para estabelecer que ele forçou a Índia e o Paquistão a recuar para evitar uma guerra nuclear. Ainda no final de fevereiro, em seu discurso sobre o Estado da União perante o Congresso dos EUA, Trump disse à audiência de elite que 35 milhões de pessoas no subcontinente “teriam morrido se não fosse pelo meu envolvimento”.
Francamente, os indianos patriotas, que têm imenso orgulho da história pós-colonial de seu país, estão hoje em dúvida se poderia haver, afinal, um fundo de verdade na afirmação persistente de Trump.
Em termos simples, por trás da cortina de fumaça do desafio estratégico, Délhi silenciosamente se rendeu ao ditame dos EUA de desistir da importação de petróleo russo. Foi a partir de comentários esporádicos de autoridades americanas que começamos a perceber que a liderança indiana havia se rendido.
No início, tendíamos a pensar que se tratava de desinformação! Mas a descrença se dissipou, e a verdade nua e crua é que o governo indiano não controla mais a autonomia de suas políticas de segurança energética. No mundo atual, para usar uma metáfora, isso é como perder a castidade. Você a perde uma vez e a perde para sempre. A segurança energética é tão central para a economia política de um país como a Índia, que depende criticamente das importações de petróleo, que mais vale equipará-la à própria independência nacional.
Basta dizer que o futuro da Índia como um país com uma política externa independente, ancorada na autonomia estratégica, está seriamente em dúvida.
O orgulho nacional fica ferido quando se lê o secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, dizendo casualmente em uma entrevista à Fox Business na sexta-feira: “O mundo está muito bem abastecido de petróleo. Ontem, o Tesouro concordou em permitir que nossos aliados na Índia começassem a comprar petróleo russo que já estava no mar. [Ênfase adicionada.]
“Os indianos têm sido atores ótimos. Pedimos que parassem de comprar petróleo russo sancionado neste outono. Eles o fizeram. Iriam substituí-lo por petróleo dos EUA. Mas, para amenizar a lacuna temporária de petróleo em todo o mundo, demos permissão para aceitarem o petróleo russo.” [Ênfase adicionada.]
Bessent acrescentou que há centenas de milhões de barris de petróleo bruto russo sancionado no mar e, em essência, “ao retirar as sanções, o Tesouro pode criar oferta. E estamos analisando isso. Vamos manter um ritmo de anúncio de medidas para trazer alívio ao mercado durante este conflito [com o Irã].”
O secretário de Energia dos EUA, Chris Wright, disse em uma postagem no X na sexta-feira:
“Implementamos medidas de curto prazo para ajudar a manter os preços do petróleo baixos. Estamos permitindo quenossos amigos na Índia recebam o petróleo que já está nos navios, refinem-no e coloquem esses barris no mercado rapidamente. Uma maneira prática de fazer o abastecimento fluir e aliviar a pressão.” [Ênfase adicionada.]
A mãe de todas as ironias é que Trump, que anteriormente determinou que, para acabar com a guerra na Ucrânia, a Índia deveria encerrar suas compras de petróleo da Rússia, agora “permite” que Nova Délhi, até novas ordens, durante o próximo período de 30 dias, adquira petróleo russo para que sua guerra contra o Irã transcorra sem percalços. A Reliance teria retomado seu comércio de petróleo com a Rússia, onde anteriormente obtinha lucros exorbitantes até que a festa terminou com o ditame de Trump.
Como um leão obediente na tenda do circo, ao som do estalo do chicote, fomos treinados para nos apresentar. Parece não haver nenhum sentimento de vergonha por parte de nossas elites governantes por estarem sendo tratadas de forma tão aberta e descarada diante da audiência mundial como os intermediários de um Estado vassalo que está à disposição de Washington.
O que Gandhiji pensaria de tudo isso? É este o “encontro com o destino” com que Nehru sonhou outrora? Pela simples liberdade de produzir sal, Gandhiji afirmou sua vontade em Dandi, no estado de Gujarat.
Os governantes atuais da Índia também deveriam exercer sua prerrogativa de tomar decisões independentes. Mas, para que isso aconteça, como escreveu Rabindranath Tagore, a mente deve primeiro estar livre de medo e a cabeça erguida.
M. K. Bhadrakumar (08/03/2026)
Via: https://sakerlatam.blog/os-eua-fazem-a-india-se-apresentar-numa-tenda-de-circo/