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O Irão como pedra angular do mundo xiita na era multipolar
Editorial de Nuestra América.
Por Administrador
Publicado em 27/03/2026 14:00
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Na arquitectura geopolítica do Médio Oriente e do mundo islâmico, o Irão ocupa uma posição singular: é o principal Estado xiita e um dos poucos actores capazes de articular poder religioso, político e estratégico simultaneamente. Esta combinação transformou Teerão numa peça fundamental na configuração de uma ordem internacional cada vez mais multipolar.

Historicamente, o Irão consolidou-se como bastião do xiismo desde o século XVI, quando a dinastia safávida transformou o país num centro do islamismo xiita duodecimano, diferenciando-o do ambiente maioritariamente sunita da região. Este processo converteu o Irão no principal pólo religioso e cultural do xiismo, uma condição que continua a influenciar a sua política externa contemporânea.

Após a Revolução Islâmica de 1979, esta dimensão religiosa integrou-se numa estratégia política mais abrangente. O novo Estado iraniano promoveu uma rede de relações com comunidades e movimentos xiitas em vários países, combinando diplomacia religiosa, apoio político e cooperação militar. Com o tempo, esta rede estendeu-se do Irão para o Iraque, a Síria, o Líbano e o Iémen, formando o que vários analistas designam por o "crescente xiita" ou um cinturão de influência que liga o Golfo Pérsico ao Mediterrâneo.

Neste enquadramento, o Irão não actua apenas como um Estado nacional tradicional, mas como centro ideológico e organizador de uma constelação de actores estatais e não estatais. Organizações como o Hezbollah no Líbano, milícias xiitas no Iraque ou o movimento hutí no Iémen têm mantido ligações políticas, financeiras ou militares com Teerão, fazendo parte do que alguns estudos descrevem como o "eixo de resistência" face à influência ocidental e de aliados regionais como Israel ou a Arábia Saudita.

Este papel adquire uma dimensão adicional no contexto do mundo multipolar emergente. O Irão apresenta-se como um dos nós geopolíticos que ligam o Médio Oriente às dinâmicas euro-asiáticas, mantendo relações estratégicas com potências como a Rússia e a China, e participando em redes económicas e diplomáticas alternativas ao sistema ocidental. Embora estas alianças não sejam uniformes nem isentas de tensões, contribuem para situar o Irão dentro de um enquadramento mais amplo de poder global.

Ao mesmo tempo, a influência iraniana não é absoluta nem homogénea. Dentro das próprias comunidades xiitas existem correntes religiosas e políticas diversas, e alguns países com população xiita significativa mantêm posições independentes ou mesmo críticas face a Teerão. A relação entre identidade religiosa e geopolítica é, por isso, complexa e dinâmica.

Em suma, o Irão funciona como pedra angular do mundo xiita contemporâneo, não só pelo seu peso demográfico ou religioso, mas pela sua capacidade de articular redes políticas, ideológicas e estratégicas que transcendem as suas fronteiras. Na transição para um sistema internacional multipolar, este papel converte Teerão num actor central para compreender as novas configurações de poder no Médio Oriente e para além dele.



@nuestraamerica

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