O Dia em que o Império Deixa de Parecer Invencível
É simples, dramático e cria imediatamente a ideia de um momento histórico irreversível.
Em princípio, um livro deveria terminar com o último capítulo.
Mas este termina, obrigatoriamente, com o penúltimo — porque, desta vez, pode não sobrar ninguém para contar como tudo aconteceu.
Na verdade, há momentos na História em que os acontecimentos parecem ultrapassar a capacidade de interpretação dos próprios contemporâneos. Vive-se o instante, mas o seu verdadeiro significado permanece obscuro. Apenas anos — por vezes, décadas — mais tarde se compreende que aquele foi o ponto em que uma época começou a terminar.
É com essa sensação de perplexidade que muitos observadores descrevem os primeiros dias da agressão militar dos Estados Unidos e de Israel contra o Irão.
Comentários, análises e testemunhos multiplicam-se nas plataformas digitais e nos meios de comunicação social, quase todos marcados pelo mesmo espanto: pela primeira vez em muitas décadas, a maquinaria militar americana parece encontrar um adversário capaz não apenas de resistir, mas também de infligir danos significativos à infraestrutura estratégica construída pelos Estados Unidos ao longo de mais de trinta anos no Médio Oriente.
Alguns analistas chegam mesmo a afirmar que estamos perante um acontecimento sem precedentes na história militar americana contemporânea. Bases consideradas entre as maiores e mais sofisticadas do mundo — no Bahrein, no Kuwait, no Catar e na Arábia Saudita — tornam-se, subitamente, alvos diretos de ataques com mísseis e drones. Instalações avaliadas em centenas de milhares de milhões de dólares, resultado de décadas de investimento e presença militar permanente na região, veem-se confrontadas com um tipo de guerra para o qual nem toda a sua superioridade tecnológica parece oferecer resposta imediata, apesar da propaganda destinada a desinformar o inimigo.
Relatórios dispersos e imagens fragmentárias sugerem a destruição de radares avançados, sistemas de defesa aérea e equipamentos de valor estratégico incalculável. Para muitos observadores, trata-se de um choque psicológico tanto quanto militar: o mito da invulnerabilidade das bases americanas começa, pela primeira vez, a ser seriamente questionado.
A própria gestão da informação parece refletir a gravidade da situação.
Ao contrário de conflitos anteriores — como a Guerra do Golfo de 1991 ou a invasão do Iraque em 2003 — a quantidade de imagens divulgadas é surpreendentemente limitada. Nesses conflitos, a superioridade aérea americana era exibida quase como um espetáculo mediático: as câmaras mostravam, noite após noite, bombas inteligentes a atingir alvos previamente identificados.
Desta vez, porém, enquanto Israel está em chamas permanentes, o silêncio visual é quase ensurdecedor.
Muitos começam a perguntar: se a supremacia aérea americana é tão absoluta como, durante décadas, se afirmou, onde estão as imagens dos aviões a dominar o espaço aéreo iraniano? Onde estão os registos da destruição sistemática das infraestruturas militares de Teerão?
A ausência dessas imagens alimenta, inevitavelmente, a especulação.
Paralelamente, começam a circular propostas estratégicas que, para alguns observadores, revelam o grau de tensão existente nos círculos de decisão em Washington. Fala-se da necessidade de escoltar militarmente petroleiros que atravessam o Golfo Pérsico, num contexto em que o Estreito de Ormuz — uma das artérias energéticas mais importantes do planeta — se torna, subitamente, um espaço de elevado risco militar.
Outras hipóteses surgem nos debates estratégicos, incluindo a possibilidade de apoiar ou armar grupos regionais hostis ao governo iraniano, numa tentativa de pressionar o país a partir das suas periferias geográficas.
Contudo, muitos analistas recordam um dado fundamental, frequentemente esquecido nas simplificações geopolíticas: o Irão é um país vasto, montanhoso, profundamente estruturado e com décadas de preparação militar defensiva.
Ao contrário de intervenções anteriores no Médio Oriente, qualquer tentativa de invasão terrestre enfrentaria um território imenso, uma população numerosa e um sistema militar disperso, com grande parte das suas infraestruturas estratégicas protegidas em instalações subterrâneas espalhadas por todo o país.
Essa realidade estratégica conduz alguns analistas a uma conclusão perturbadora: mesmo que os Estados Unidos e os seus aliados possuam capacidade para infligir danos devastadores às cidades e às infraestruturas civis, isso não significa, necessariamente, possuir a capacidade de vencer a guerra em termos militares ou políticos.
A distinção entre poder destrutivo e capacidade de vitória torna-se cada vez mais evidente.
É precisamente essa perceção que começa a circular em muitos espaços de análise internacional: os Estados Unidos continuam a ser a “maior potência” militar do mundo, mas já não possuem a liberdade estratégica que, durante décadas, lhes permitiu intervir no Médio Oriente sem enfrentar adversários capazes de responder com eficácia.
Se essa leitura estiver correta, o que está em causa não é apenas um conflito regional. Está em causa algo muito mais profundo: a transformação da ordem estratégica global.
Durante mais de três décadas após o fim da Guerra Fria, os Estados Unidos exerceram uma presença quase incontestada no Médio Oriente. Bases militares, alianças regionais, controlo das rotas energéticas e superioridade tecnológica garantiram a Washington uma capacidade de intervenção praticamente ilimitada.
Mas a História raramente permanece imóvel.
A emergência de novos atores, a modernização militar de potências regionais e o desenvolvimento de tecnologias capazes de neutralizar parte da vantagem militar americana começam, lentamente, a alterar o equilíbrio de forças.
Talvez por isso alguns observadores afirmem, com uma convicção que mistura análise e intuição histórica, que este conflito pode marcar o início de uma nova realidade geopolítica: um Médio Oriente onde a presença militar americana deixa de ser um dado incontestável.
Se essa previsão se confirmará ou não, só o tempo o poderá dizer.
Mas uma coisa parece já evidente para muitos analistas neste momento: a era da invencibilidade estratégica americana começa, pelo menos, a ser seriamente questionada.
E, quando um império deixa de parecer invencível, algo de profundo se altera na consciência do mundo.
Os impérios raramente caem no momento em que são derrotados pela primeira vez. Caem, sobretudo, quando deixam de inspirar a convicção de que são invencíveis.
É por isso que este livro, O FIM DO IMPÉRIO, termina deliberadamente com este penúltimo capítulo.
Porque o verdadeiro último capítulo — se algum dia vier a ser escrito — não falará apenas do declínio de uma potência ou da transformação da ordem internacional.
Falará de algo muito mais terrível.
Falará da possibilidade de que as rivalidades entre grandes potências ultrapassem o limiar das guerras convencionais e entrem no território das catástrofes globais. Falará do risco de que os conflitos do século XXI não terminem apenas com a queda de um império, mas com a devastação de cidades, de continentes e, talvez, da própria civilização humana.
Seria um capítulo sobre a tragédia final da era dos impérios — e, talvez, sobre o último erro da humanidade.
Por essa razão, escolho parar aqui.
Porque há histórias cujo último capítulo é melhor que permaneça por escrever.
E porque, talvez, a maior esperança da humanidade seja precisamente esta: que esse último capítulo nunca precise de existir.
Mas a História ensina uma lição inquietante: os momentos mais perigosos para a humanidade não são, necessariamente, aqueles em que um império atinge o auge do seu poder, mas precisamente aqueles em que começa a perceber que esse poder já não é absoluto.
Os impérios seguros de si podem ser arrogantes; os impérios que sentem o peso do declínio tornam-se, muitas vezes, imprevisíveis.
É nesse instante de incerteza que o cálculo estratégico pode ceder lugar ao desespero político, e que decisões tomadas em salas fechadas passam a ter consequências capazes de ultrapassar continentes.
Ao longo dos séculos, a História repetiu esse padrão: quando uma ordem internacional começa a vacilar e nenhuma nova ordem ainda se consolidou, o mundo entra numa zona de turbulência onde os riscos se multiplicam. Rivalidades que, durante décadas, permaneceram contidas podem, subitamente, escapar ao controlo, arrastando nações inteiras para confrontos cada vez mais vastos.
Talvez seja precisamente esse o momento que o nosso tempo atravessa.
Se a era da invencibilidade estratégica americana está realmente a chegar ao fim, como sugerem alguns analistas, então o problema que se coloca à humanidade não é apenas o declínio de um império.
O verdadeiro problema é o que acontece depois.
Porque o fim de uma hegemonia raramente significa o início imediato de um equilíbrio estável. Pelo contrário, abre frequentemente um período de competição entre grandes potências, de alianças instáveis e de confrontos indiretos que podem, em determinadas circunstâncias, ultrapassar limites que, durante décadas, pareceram intransponíveis.
É nesse ponto que a reflexão deixa de ser apenas geopolítica e passa a ser profundamente humana.
Pois aquilo que pode estar em jogo no século XXI já não é apenas o destino de um império — mas o destino da própria civilização.
É por isso que, antes de avançarmos para o último capítulo, se torna inevitável enfrentar uma pergunta perturbadora:
o que acontece ao mundo quando a era dos impérios entra na sua fase final?
É essa pergunta — talvez a mais inquietante do nosso tempo — que conduz, inevitavelmente, ao capítulo final deste livro.”
Extrato do Penúltimo Capítulo do livro “O FIM DO IMPÉRIO”, cujo autor é o Coronel Adriano Pires.