Quem busca conhecer mais a história dos EUA descobre que, desde os primórdios do país, seus “pais fundadores” (founding fathers) consideravam Roma, mais precisamente a República Romana - período compreendido entre 509 a.C. e 27 a.C. - como uma inspiração, um modelo a ser seguido pela nação que estava a surgir. Por isso mesmo que não é incomum existir comparações entre a nação mais poderosa do planeta há décadas e a última superpotência da Antiguidade Clássica, independente da fase desta enquanto civilização (monárquica, republicana ou imperial), para bem ou mal.
Também é sabido que tanto a Roma Antiga como os EUA, ao longo de sua história enquanto civilização, tiveram altos e baixos, alternando períodos de prosperidade e crise; períodos sob o governo de verdadeiros estadistas e períodos sob governantes inconsequentes a ponto de colocarem a estabilidade institucional de seus domínios em risco.
Em Roma, mais precisamente no período imperial, dois governantes se notabilizaram pela sua conduta extremamente irresponsável no poder: Calígula (37-41), conhecido por suas práticas imorais, seu despotismo e por ter indicado seu cavalo Incitatus como consul, foi assassinado pela guarda pretoriana, formada por soldados responsáveis pela sua segurança; e Nero (54-68), conhecido por suas atrocidades para se manter no poder - inclusive por ter empreendido a primeira grande perseguição aos cristãos e atribui-se a ele, inclusive, o incêndio de Roma (ocorrido no ano 64) e, após perder o controle do Império por conta de sucessivas revoltas e o apoio da mesma guarda pretoriana, acabou cometendo suicídio, com sua morte marcando o fim da Dinastia Júlio-Claudiana e mergulhando o Império Romano em uma guerra civil, que só se encerraria com a ascensão de Vespasiano (69-79), o primeiro da Dinastia Flaviana, ao poder.
Avancemos rápido no tempo e cheguemos em Donald Trump, o atual presidente dos EUA. Como Calígula, Trump é notoriamente conhecido pelas suas práticas imorais em sua vida pública e privada, antes mesmo de chegar ao poder pela primeira vez. O caso em que foi condenado no caso Stormy Daniels, em que foi condenado para comprar o silêncio de uma atriz pornô, é apenas a ponta de um gigantesco iceberg (falarei sobre os arquivos Epstein mais adiante) - a propósito, trata-se do primeiro presidente dos EUA condenado a tomar posse, nem “descondenado” foi, como diz uma certa direita sobre Lula aqui no Brasil. Aliás, temos o curioso caso em que essa mesma direita, lá e cá, enxerga em uma figura de moralidade no mínimo duvidosa (para usar termos generosos) como um restaurador dos valores cristãos.
Também como Calígula (e também Nero), Trump, neste segundo mandato presidencial, não só demonstra clara incompetência e inconsequência na condução de seu governo - não atoa que sua aprovação de mandato atinge mínimas históricas - , mas também se cercou de uma equipe de governo tão ou até mais incompetente e/ou inconsequente que ele. Pete Hegseth, atual secretário de Defesa - ou, como o atual governo denomina, secretário de Guerra -, é o exemplo mais evidente do momento (embora não o único, como veremos mais adiante). Com acusações de agressão sexual, sem nenhum cargo de comando durante sua passagem nas Forças Armadas e com relatos de que chegava bêbado durante sua passagem enquanto comentarista da Fox News, este foi o escolhido de Trump para chefiar uma das pastas mais importantes do governo americano.
Já como Nero, Trump trata seu mandato como uma extensão dos tempos de show business, mais com o intuito de entreter sua base de eleitores do que de fato governar o país. E tal como o imperador que terminou como um pária e se suicidou ao final do mandato, o atual mandatário americano, paulatinamente, tem se alienado de seus antigos aliados MAGA (Make America Great Again) - casos como a ruptura com a ex-deputada Marjorie Taylor Greene e com o jornalista Tucker Carlson não me deixam mentir.
Feitos os paralelos, vamos a um breve resumo do segundo governo de Trump, o ‘Nerígula’ do Império Americano: nos primeiros dias de seu mandato, colocou Elon Musk, CEO de empresas como Tesla e SpaceX, para comandar o Departamento de Eficiência Governamental (Department of Government Efficiency - DOGE), comissão consultiva criada com o intuito de enxugar os gastos do Orçamento americano (inclusive a direita brasileira, tão logo essa iniciativa foi anunciada, defendeu-a como “modelo” para cá).
Fato claro, objetivo e cristalino: dos US$ 2 trilhões de economia inicialmente anunciados como meta, o corte chegou a módicos US$ 150 bilhões. Isso sem falar no potencialíssimo conflito de interesses pelo fato de Musk ter contratos com o governo americano, na judicialização que se sucedeu devido à forma atabalhoada e sem o devido conhecimento da máquina pública em que esses cortes foram executados, e até mesmo no risco de funcionários qualificados do Estado americano serem recrutados por potências rivais, como Rússia e China.
Segundo ponto: a guerra comercial em múltiplas frentes estabelecida por Trump desde os primeiros meses de seu governo, inclusive contra aliados tradicionais, estabelecendo tarifas draconianas pelas mais diversas razões, desde puramente comerciais até razões políticas espúrias, como as praticadas contra o Brasil a pretexto de interferir nas ações do Judiciário brasileiro contra Jair Bolsonaro, seu aliado ideológico. Para além de não ter surtido nem de longe o efeito proposto, foi declarado inconstitucional pela Suprema Corte. E nem dá para reclamar da composição desta, visto que é de maioria conservadora.
Em seguida, vamos à política migratória, outro ponto em que Trump, se ainda tinha alguma popularidade, viu esta esvair-se rapidamente com as ações do Serviço de Imigração e Fiscalização Aduaneira (mais conhecido como Immigration and Customs Enforcement, ou, simplesmente, ICE). Destinada a proteger o país da imigração ilegal - que sim, de fato, é um problema recorrente no país -, a condução errática e politizada da agência teve como consequência a morte de dois cidadãos norte-americanos em Minneapolis (maior cidade de Minnesota, coincidentemente um estado que não vota em candidato republicano à presidência desde 1976) e protestos subsequentes, levando Trump a recuar - embora nem tanto, visto que resolveu empregá-los para ajudar na patrulha dos aeroportos do país.
Mais recentemente, temos a completa metamorfose na política externa trumpista: de um presidente eleito com o discurso de encerrar as guerras na Ucrânia e no Oriente Médio, ele não só não o fez como também adotou o discurso intervencionista mais descarado ao aderir a Israel na ofensiva militar contra o Irã, que, inicialmente prevista para durar alguns dias, já se arrasta há um mês, sem perspectivas para término em curto prazo, e com consequências de médio a longo prazo potencialmente devastadoras para a economia, visto que parte considerável de estruturas importantes da cadeia petrolífera no Oriente Médio foi severamente danificada ou mesmo destruída no conflito. E isso sem falar no bloqueio do Estreito de Ormuz pelo Irã, por onde passa 1/5 do petróleo mundial, e no potencial bloqueio do Estreito de Bab el-Mandeb pelos houthis, aliados do Irã no Iêmen. Basicamente o choque estagflacionário que tivemos durante a pandemia de Covid-19, mas sem ela.
Poderia entrar em detalhes sobre outros pontos que fazem da atual gestão de Trump ser facilmente considerada a pior, pelo menos, desde Herbert Hoover, o presidente cujo governo foi marcado pela quebra da Bolsa de Nova York em 1929 e pela Grande Depressão subsequente, mas, para não delongar ainda mais este artigo, citarei dois pontos não menos importantes aqui: um tem sido a postura predatória adotada inclusive contra países aliados - as ameaças de anexação do Canadá, tradicional parceiro dos EUA, e da Groenlândia, território autônomo pertencente à Dinamarca, país-membro da OTAN, são os exemplos mais notórios.
Outro, atravessando tudo que mencionei antes, tem sido a mudança de discurso em relação aos “arquivos Epstein”: da promessa de transparência total em relação ao financista morto na prisão enquanto enfrentava processos de tráfico sexual, passou a tratar o caso como um “hoax dos democratas”, só cumprindo sua promessa após pressão do Congresso e por não conseguir convencer os republicanos a votar contra a medida. A propósito, algumas das revelações destes arquivos, não querendo entrar em detalhes, são escabrosas, dignas de filmes de terror de baixo orçamento.
Enfim, por essas e por outras razões, Trump consegue unir a imoralidade de Calígula com a inconsequência e fanfarronice de Nero, dois dos piores governantes da história da Roma Antiga.
Eis o ‘Nerígula’ do Império Americano. Com o agravante de que possui armas que nenhum imperador romano sonhou em ter, e que colocam em risco o mundo inteiro.
Marcus Jr. - editor-chefe do Sétima República. É formado em Engenharia de Produção, especialista em Gestão Pública e servidor público. Gosta de falar sobre política, economia, sociedade e outras coisas que vier a dar na telha.
Publicado no Substack