Lazare Carnot*
Durante a década de 1970, à medida que o regime militar desmantelava as guerrilhas urbanas e rurais no Brasil, muitos insurgentes presos passaram a conviver com criminosos comuns no sistema carcerário. Nesse contexto, indivíduos ideologicamente orientados e com experiência em guerra irregular acabaram por influenciar e organizar esses grupos, contribuindo para o surgimento, em 1979, da chamada Falange Vermelha (que, mais tarde, seria chamada Comando Vermelho) — considerada a primeira facção criminosa estruturada do país.
Esse fenômeno coincidiu com a expansão do tráfico internacional de cocaína na década de 1980, inserindo progressivamente o Brasil em uma posição estratégica nas rotas do crime transnacional. Desde então, o país passou a vivenciar um conflito de baixa intensidade, caracterizado pela atuação de organizações criminosas com controle territorial e capacidade armada relevante.
Apesar disso, o Estado brasileiro historicamente enquadra essa realidade como um problema restrito à segurança pública, quando, em verdade, trata-se de uma questão de segurança nacional e regional. Ao negligenciar essa dimensão estratégica, o Brasil permitiu que sua influência na região fosse erodida. Um exemplo claro disso é o recente conceito de Shield of the Americas, sob a égide de uma Doutrina Monroe atualizada, que surge para preencher o vácuo deixado por anos de passividade e abordagens erradas de Brasília. A tutela externa sobre a segurança hemisférica é o resultado direto da nossa renúncia em liderar o tabuleiro sul-americano.
Em primeiro lugar, é necessário reconhecer o caráter multifacetado do fenômeno. O domínio territorial em centros urbanos e a expansão do banditismo em regiões interiores são sustentados por uma complexa rede internacional. De forma geral, a produção de entorpecentes concentra-se na região andina, com posterior refino e distribuição através da Amazônia, abastecendo tanto o mercado interno quanto rotas destinadas à Europa e à África.
Dessa forma, políticas centradas exclusivamente em operações policiais localizadas, embora necessárias, mostram-se insuficientes para enfrentar o núcleo estrutural do problema, que possui natureza transnacional e demanda articulação diplomática.
Ademais, a atuação da política externa brasileira ainda se mostra limitada nesse campo. A ausência de iniciativas mais incisivas de cooperação e pressão internacional sobre países-chave nas rotas do tráfico contribui para a perpetuação do problema e para a consolidação de doutrinas estrangeiras que minam nossa soberania. Paralelamente, a tendência de delegar a questão aos entes estaduais reforça uma abordagem fragmentada, na qual governadores atuam predominantemente no combate ao varejo do crime, sem capacidade de atingir suas bases estruturais.
Isso não implica a rejeição do uso da força estatal — pelo contrário. A desarticulação de enclaves controlados por organizações criminosas é medida necessária. Contudo, sem o enfraquecimento simultâneo de suas fontes de financiamento e de suas redes internacionais, tais ações tendem a produzir efeitos apenas temporários.
Em síntese, o Brasil ainda enfrenta o crime organizado sob uma lógica compartimentada e defasada. A superação desse quadro exige uma reorientação estratégica que o reconheça como um problema de segurança regional, demandando coordenação federativa, atuação diplomática ativa e uma política integrada capaz de enfrentar suas múltiplas dimensões e retomar o protagonismo brasileiro frente às pressões externas.
*: pseudônimo. Observador da vida política, da guerra e da história.
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