Uma só letra pode arrastar um campo semântico inteiro, com enormes incidências morais e políticas. Uma “Grande Reportagem” sobre a situação em Cuba, emitida pelas 23 horas de ontem (sábado) na CNN Portugal, mostrava os efeitos devastadores do bloqueio comercial, económico, financeiro e político desferido há mais de 60 anos contra o povo cubano pelo facto de ter feito uma revolução “não autorizada”.
Este enorme crime que a administração Trump agravou há dois meses, interditando inclusivamente a transferência das “receitas da emigração” para os familiares dos emigrados cubanos, agravou drasticamente as condições de vida de toda a população, revolucionária ou não.
As chamadas “sanções” são responsáveis por cerca de meio milhão de mortes por ano, em todo o mundo. São uma forma especialmente vil de guerra não declarada.
Em Cuba, os próprios hospitais têm quebras trágicas de abastecimento elétrico. Enquanto médicos cubanos trabalham solidariamente em mais de 60 países do mundo, a “grande reportagem” mostrava as prateleiras vazias das farmácias.
Sóbrios apesar do sofrimento, os cubanos ouvidos pelos repórteres (que a CNN não identificou, tal como deixou por informar sobre a data da realização da reportagem, deduzindo-se que seja recente) não abrem fogo contra a revolução. Falam amargamente do seu quotidiano, da falta de soluções, como não?
Tudo isto é apresentado como a “crise económica cubana” e nunca como o crime de lesa humanidade (mais um) que ao longo destas décadas privou a economia cubana do equivalente a todo o dinheiro despejado em Portugal pela CEE/União Europeia desde 1986.
Imaginemo-nos, nós, que apesar disto continuamos um dos povos e países mais pobres da União Europeia, privados desta verba colossal, equivalente a um ano do PIB português…
A ausência de qualquer identificação sobre a data e os autores da “grande reportagem” desresponsabiliza quem a realizou e quem a transmite pelo seu conteúdo. Que ao apresentar um crime sob a designação de uma “crise” torna-se moral e politicamente corresponsável por ambos, pelo crime e pela crise. Mudar só uma letra basta para mudar tudo. No chamado “jornalismo” há quem saiba disto…
(Na imagem, aspeto da sessão de hoje, em Lisboa, alusiva ao centenário do nascimento de Fidel Castro. Não haverá reportagem suficientemente grande para incluir esta iniciativa.)
Rui Pereira in Facebook