Antes que alguém pudesse fingir surpresa, a máscara começou a desprender-se do rosto daqueles que, durante tanto tempo, insistiram em chamar à guerra apenas aquilo que lhes convinha designar como tal, ocultando tudo o resto sob o véu confortável de palavras meticulosamente escolhidas. E, quando a máscara finalmente tombou, não revelou um rosto desconhecido; limitou-se a confirmar aquilo que muitos já suspeitavam: que a tragédia instalada nas planícies devastadas não pertencia apenas aos homens que ali morriam, mas também aos que, sentados em salas revestidas de madeiras nobres e iluminadas por lustres de cristal, desenhavam mapas, redigiam comunicados e discursavam sobre a paz enquanto aperfeiçoavam a sofisticada engenharia da guerra.
Chegados a este ponto, torna-se cada vez mais difícil à União Europeia e à NATO sustentar a narrativa segundo a qual o mundo assiste apenas a um conflito entre povos irmãos, circunscrito às fronteiras de uma única nação. Os factos acumulados, a crescente internacionalização do conflito e o envolvimento directo ou indirecto de múltiplos actores tornam essa leitura cada vez menos plausível. Persistir nessa versão dos acontecimentos exige um esforço retórico que a realidade se encarrega, dia após dia, de desmentir. O que lentamente emerge é o retrato de uma guerra por procuração, em que o território ucraniano se converte no palco escolhido para a disputa entre potências maiores, enquanto o povo da Ucrânia é reduzido à condição de combustível humano, alimentando um incêndio cuja origem, dimensão e persistência ultrapassam largamente a sua própria vontade.
Foi então que, vindo das terras baixas onde o mar aprendeu, há séculos, a submeter-se à disciplina dos diques, surgiu um pronunciamento institucional que, há não muito tempo, teria sido considerado impensável. O Conselho Consultivo para os Assuntos Internacionais defendia que, caso as armas algum dia se silenciassem, não bastaria uma paz assinada em papel nem a presença simbólica de observadores internacionais. Seria necessária uma força internacional permanente, armada e preparada não apenas para vigiar, mas para combater; não apenas para observar, mas para dissuadir e, se necessário, repelir qualquer futura ofensiva russa, sempre em estreita coordenação com a NATO. No fundo, uma Declaração de Guerra.
Tanto assim é que o imperador, que prometera pôr fim a essa guerra no prazo de vinte e quatro horas após subir ao trono, acabou por fazer precisamente o contrário: destacou-se como um dos maiores vendedores de armamento de guerra, alimentando o conflito que jurara terminar.
A prudência das palavras era, contudo, apenas aparente. Sob a superfície da linguagem diplomática desenhava-se um cenário de inequívoca continuidade estratégica. Já não se discutia a limitação das capacidades militares da Ucrânia nem a prevenção de futuras escaladas. Pelo contrário, defendia-se a manutenção de um exército ucraniano forte, permanentemente treinado, equipado e integrado na estrutura de aprendizagem operacional proporcionada pelas forças da Aliança Atlântica. A guerra deixava, assim, de ser apresentada como uma circunstância excecional e transitória para adquirir a consistência de uma arquitetura destinada a sobreviver ao próprio conflito.
É talvez aí que reside o dilema mais profundo desta história. Durante anos repetiu-se que cada remessa de armamento servia apenas para defender a paz, que cada novo contingente militar aproximava o fim das hostilidades e que cada escalada era apresentada, paradoxalmente, como um investimento na paz, na estabilidade e na democracia. Agora, porém, as entrelinhas começam a afirmar aquilo que antes apenas insinuavam: que as garantias de segurança concebidas pelo Ocidente não se destinam apenas a proteger um aliado, mas também a consolidar uma arquitetura militar estruturada em função da Rússia, perpetuando um antagonismo cuja duração ninguém ousa prever.
Talvez a verdadeira máscara nunca tenha sido feita de tecido nem de papel, mas de palavras. E são sempre as palavras, quando deixam de conseguir esconder a realidade, as primeiras a cair. Depois delas resta apenas o espelho, diante do qual cada protagonista desta história terá de responder à pergunta que mais inquieta qualquer consciência: em que momento deixou de distinguir a construção da paz da administração permanente da guerra?
Adriano Pires – Coronel do Exército de Cabo Verde na Reforma in Facebook