Independentemente das tradições e das superstições, havia quem afirmasse que tudo aquilo era inevitável. Não porque tivesse o dom de adivinhar o futuro, mas porque a História, paciente e imparcial, acaba sempre por apresentar a factura a quem se julga acima dela.
Na praça sem nome de baptismo, onde as notícias corriam mais depressa do que o vento, começou a espalhar-se um rumor insólito: o velho senador seria velado num caixão fechado. A explicação oficial era simples e solene: «Foi vontade da família.» E, como tantas vezes sucede quando as justificações são excessivamente convenientes, poucos lhes deram inteiro crédito.
As conversas multiplicavam-se à velocidade da luz. Uns diziam que os caixões fechados serviam para ocultar as marcas deixadas por uma longa enfermidade. Outros recordavam que também eram utilizados quando a morte sobrevinha de forma tão violenta que já não restava um rosto para mostrar, nem uma aparência de dignidade para preservar.
No meio de tanta especulação, alguém recordou que, poucas horas antes, o mesmo homem surgira sorridente numa fábrica de drones, distribuindo apertos de mão, posando para fotografias e proferindo palavras inflamadas, como se a guerra fosse apenas um cenário conveniente para discursos e câmaras de televisão. Parecia confiante, seguro de si, convencido de que os incêndios ateados à distância jamais alcançariam quem lhes lançava o rastilho.
Depois, como tantas vezes acontece nas tragédias que a própria realidade parece inspirar, os rumores ganharam vida própria. Falava-se de um impacto fulminante, de um instante tão rápido que nem o próprio tempo teria compreendido o que sucedera. Dizia-se que a precisão fora cirúrgica, quase simbólica, como se o destino tivesse decidido escrever a última linha daquela história com a mesma frieza com que alguns traçam estratégias militares sobre mapas onde nunca derramaram uma única lágrima.
Talvez fosse apenas imaginação popular, fértil por natureza. Talvez fosse apenas a necessidade humana de encontrar um sentido de justiça onde tantas vezes imperam a violência e o desprezo pela vida. Mas, nas tabernas, nos cabarés, nos cafés e nas esquinas, repetia-se a mesma ironia amarga: havia quem passasse a vida inteira a defender bombardeamentos sobre cidades distantes, convencido de que o fogo consumiria apenas a casa dos outros. Esquecia-se de que as chamas, uma vez libertadas, deixam de reconhecer fronteiras, bandeiras ou autores.
Assim, o caixão fechado transformou-se numa metáfora. Já não ocultava apenas um corpo; escondia uma existência inteira edificada sobre discursos de confronto, sobre o entusiasmo pela escalada da guerra e sobre a ilusão de que a violência pode ser administrada como se fosse poesia ou um simples instrumento político — sem que um dia regresse às mãos de quem a desencadeou.
No silêncio do funeral — real ou imaginado — restava apenas a reflexão que o tempo nunca deixa de impor àqueles que confundem poder com impunidade. Porque a História é paciente. Pode tardar, pode parecer distraída, mas acaba quase sempre por apresentar a factura a quem julgou poder escapar ao seu julgamento.
Foi então que um velho, de rosto sulcado pelo tempo e pela experiência, encostado ao muro do cemitério, murmurou uma sentença que atravessa gerações e permanece imune às modas, às ideologias e aos impérios:
— Aqui se faz, aqui se paga. Quem com ferro mata, com ferro morre.
Era o velho provérbio popular, em perfeita sintonia com a advertência de Jesus Cristo no Evangelho segundo São Mateus:
«Todos os que lançarem mão da espada, à espada morrerão.» (cf. Mateus 26:52).
E o silêncio que se seguiu pareceu confirmar que há verdades cuja força reside precisamente no facto de sobreviverem ao tempo, aos homens e às suas ilusões de impunidade.
Adriano Pires – Coronel do Exército de Cabo Verde na reforma in Facebook