Há qualquer coisa de profundamente tranquilizadora na loucura predatória contemporânea: já não precisa de se esconder. Outrora, a voracidade disfarçava-se de prudência, a ambição de virtude e a violência de necessidade histórica. Hoje, tudo é mais simples. O predador apresenta-se em público, rodeia-se de assessores, senta-se nos parlamentos, ocupa gabinetes ministeriais, participa em cimeiras internacionais e entra diariamente pela televisão dentro com a respeitabilidade que outrora se reservava aos homens sensatos.
Fala em nome da democracia, da moral e ética, da segurança, dos direitos humanos e da ordem internacional e, com a solenidade própria de quem se considera moralmente impecável, explica à vítima por que razão deve agradecer o privilégio de ser sacrificada.
A civilização atingiu, assim, uma extraordinária forma de progresso: já não é necessário justificar o absurdo. Basta baptizá-lo com uma palavra respeitável.
E quanto mais monstruosa é a decisão, mais respeitável parece a linguagem que a acompanha. A barbaridade chega de gravata, a crueldade fala em nome dos direitos humanos e a destruição apresenta-se como defesa da paz. Já não é apenas o cúmulo do absurdo: é a transformação da linguagem moral num escaparate para esconder a imoralidade.
A impressão que fica é simples:
Os loucos dirigem e os cegos aplaudem.
Uns decidem. Outros aplaudem.
E, de vez em quando, descobrem que a factura também lhes chegou a casa. Nem isso, porém, parece suficiente para interromper o aplauso.
É uma curiosa forma de servidão: sofrer pelas decisões de alguém e, ainda assim, agradecer-lhe de joelhos ao chão por as ter tomado.
Durante séculos, os filósofos perguntaram como era possível que sociedades inteiras aceitassem a tirania. Hoje, talvez já não sejam necessários grandes tratados para encontrar a resposta. Basta abrir uma rede social, ligar a televisão ou ler um jornal.
O homem contemporâneo não quer propriamente compreender o mundo.
Quer ter razão sobre ele.
E, para ter razão, aceita quase tudo.
Aceita a guerra, desde que seja a guerra dos seus inimigos.
Aceita a censura, desde que seja contra os outros.
Aceita a mentira, desde que confirme aquilo em que já acreditava.
Aceita a morte, desde que lhe expliquem convenientemente que os mortos pertenciam ao lado errado.
A moral passou, assim, a ter fronteiras.
Uma criança morta pode ser uma tragédia ou uma necessidade estratégica. Depende da bandeira — supondo que uma criança tenha bandeira.
Talvez esta seja uma das mais extraordinárias conquistas intelectuais do nosso tempo: conseguimos transformar a morte de seres humanos num argumento partidário.
E ainda nos admiramos de que a humanidade esteja desumanizada.
O fenómeno não é novo. O homem sempre foi capaz de atrocidades. A novidade está na sofisticação com que hoje as justifica.
Antigamente, parafraseando Eduardo Galeano, matava-se em nome de Deus, do rei ou da pátria. Hoje acrescentámos a democracia, a segurança, os russos, a ordem internacional, os direitos humanos e uma impressionante colecção de expressões respeitáveis que servem, conforme as circunstâncias, para explicar por que razão aquilo que fazemos é virtuoso e aquilo que o adversário faz é criminoso.
A linguagem tornou-se o último refúgio da consciência.
Invoca-se a paz enquanto se enviam armas letais.
Defende-se a liberdade enquanto se silenciam opiniões incómodas.
Fala-se de direitos humanos enquanto seres humanos são reduzidos a danos colaterais.
E tudo isto, naturalmente, é feito com as melhores intenções.
A História está cheia de crimes cometidos com excelentes intenções.
O cidadão comum poderia desconfiar.
Mas não desconfia.
Prefere acreditar.
É mais cómodo.
Pensar dá trabalho. Duvidar é cansativo. Reconhecer que podemos estar errados é quase insuportável para quem transformou a opinião numa extensão da própria personalidade.
Por isso, escolhe-se uma tribo e entrega-se-lhe a consciência.
Depois, a tribo pensa por nós.
É uma solução admirável para um problema antigo.
Já não é necessário censurar milhões de pessoas. Basta convencê-las de que censurar os outros é defender a liberdade. É proporcionar progresso e felicidade.
Já não é necessário obrigá-las a acreditar. Basta fazê-las ter receio de parecer diferentes.
Já não é necessário proibir o pensamento. Basta tornar socialmente inconveniente pensar pela própria cabeça.
E assim chegámos ao paradoxo do nosso tempo:
Nunca tivemos tanta informação e talvez nunca tenhamos sido tão facilmente manipuláveis.
Sabemos tudo sobre todos, excepto aquilo que realmente importa.
Sabemos quem disse o quê, quem insultou quem, quem invadiu quem, o que se faz na Rússia, China, Irão e Coreia do Norte, quem publicou determinada fotografia e quem apagou determinado comentário.
Mas quase ninguém pergunta:
Quem beneficia?
Quem paga?
Quem morre?
E por quê?
Essas perguntas são perigosas porque estragam narrativas.
E o nosso tempo vive de narrativas produzidas em laboratório.
A realidade, essa inconveniente senhora, já não é muito apreciada. Tem o péssimo hábito de contradizer a propaganda.
Talvez por isso seja tão fácil fabricar consensos. Repete-se uma ideia vezes suficientes e a repetição acaba confundida com verdade. Depois, quem pergunta é suspeito; quem duvida é ingénuo; quem discorda é inimigo.
E os cegos continuam a aplaudir.
Mesmo quando lhes tiram o pão. Mesmo quando lhes aumentam os impostos. Mesmo quando lhes explicam que terão de aceitar menos para que outros possam gastar mais. Mesmo quando os filhos são enviados para combater guerras que não compreendem.
Aplausos, sempre.
É difícil imaginar demonstração mais perfeita de alienação.
O poder, afinal, não precisa de convencer toda a gente. Precisa apenas de convencer o suficiente.
O resto encarrega-se de vigiar, denunciar e insultar aqueles que ainda conservam a inconveniente mania de pensar.
Talvez seja esta a verdadeira crise do nosso tempo: não apenas uma crise económica, militar ou política, mas uma crise da consciência.
Estamos a perder a capacidade de olhar para o sofrimento sem perguntar primeiro de que lado está a vítima.
Estamos a perder a capacidade de discordar sem odiar.
Estamos a perder a capacidade de pensar sem pedir autorização.
E uma sociedade que deixa de pensar acaba inevitavelmente por aplaudir quem pensa por ela.
Foi assim que muitas tragédias começaram.
Nunca com milhões de pessoas a gritarem: «Queremos a catástrofe!»
Começaram, geralmente, com pessoas razoáveis a dizerem:
«Não há alternativa.»
É a frase preferida de todos os que pretendem transformar o absurdo em inevitabilidade.
Por isso, talvez seja tempo de parar de aplaudir.
Não porque os outros tenham sempre razão. Mas porque nenhum homem, nenhum governo, nenhum partido, nenhuma potência e nenhuma ideologia merece possuir a nossa consciência por procuração.
A humanidade não se desumaniza apenas quando mata inocentes.
Desumaniza-se quando deixa de se importar com a vida de cada qual.
Quando aceita que umas vidas valem mais do que outras.
Quando transforma a morte em espectáculo.
Quando a indignação depende da nacionalidade da vítima.
Quando a consciência passa a funcionar por conveniência.
E talvez o mais assustador seja isto:
os loucos não são necessariamente os mais perigosos.
Perigosos são os loucos que encontram milhões de cegos dispostos a aplaudi-los.
Porque a loucura de quem governa pode ser temporária.
A cegueira de quem aplaude pode durar uma geração.
Adriano Pires – Coronel do Exército de Cabo Verde na Reforma