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Venezuela: Aqueles que se adaptam e justificam qualquer cenário são os oportunistas sem princípios
Não vamos renunciar a Chávez só porque o seu legado foi pisoteado por aqueles que representam o completo oposto do projeto bolivariano.
Publicado em 08/09/2026 18:00
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Não há exemplo melhor de submissão a interesses estrangeiros e capitalistas do que o facto de metade do país estar permanentemente às escuras para que as corporações possam continuar extraindo os seus lucros do nosso subsolo.

A avalanche de contratempos está longe de terminar. O plano do governo de privatizar ativos estatais, a reforma trabalhista moldada às exigências de Fedecámaras, a redução do tamanho do Estado em nome da "eficiência" e a reestruturação de uma dívida tão grande quanto ilegítima — tudo com o objetivo de aprofundar ainda mais a dependência da Venezuela — ainda precisam ser implementados.

*Tragédia e farsa ao mesmo tempo*

Durante anos, o debate interno foi suprimido e reprimido porque estávamos sitiados pelo imperialismo e pela direita internacional. Não importava se a discussão era sobre a melhor forma de resistir sem sacrificar o projeto. Tínhamos que permanecer em silêncio diante de todos os tipos de abusos, porque se a direita chegasse ao poder, desmantelaria todas as conquistas da revolução e entregaria o petróleo de bandeja aos Estados Unidos.

E agora os propagandistas oficiais querem demonstrar a quadratura do círculo, que aquilo que tem todas as características de uma rendição e submissão colonial é, na realidade, um avanço estratégico "ganha-ganha".

Não existe erro mais grave e ultrajante do que tratar as pessoas como tolas. Durante meses, ouvimos que tínhamos que nos preparar para uma guerra popular, que os EUA teriam o seu próprio Vietnam 2.0 e não receberiam uma gota de petróleo sequer se atacassem a Venezuela. Ninguém queria um banho de sangue, mas afirmavam que tínhamos que resistir, de forma assimétrica, à agressão imperialista. Depois, descobrimos que não tínhamos armas suficientes e tentam nos explicar, de maneira simplista, que ser vassalo do império não é tão ruim assim.

Outro argumento fundamental foi o internacionalismo. Disseram-nos que, apesar de todos os contratempos e contradições internas, a Venezuela ainda estava do lado certo, do lado da multipolaridade. E isso não era mentira. A Venezuela mantinha relações com Cuba e exportava petróleo para o país, embora em menor quantidade do que no passado, apoiava o Irão, defendia firmemente a causa palestina e denunciava o imperialismo em fóruns multilaterais.

Atualmente, a política externa é a mesma de qualquer outro país subserviente a Washington. Nem uma gota de petróleo para Cuba, zero apoio ao Irão, uma aliança com as monarquias do Golfo, silêncio sobre a Palestina e relações restauradas com Israel. As relações estratégicas com a Rússia e a China estão a ser marginalizadas, as suas empresas sendo gradualmente substituídas para dar lugar àquelas autorizadas por Trump.

Aqueles que se adaptam e justificam qualquer cenário são os oportunistas sem princípios. O seu único objetivo é permanecer no poder, mesmo que isso signifique implementar exatamente o oposto do que proclamaram anteriormente. A atual liderança simplesmente concluiu que a melhor maneira de se manter no poder era ser o mais útil possível ao imperialismo.

*A história não acabou*

Num passado não muito distante, o povo venezuelano recuperou a dignidade que lhe fora roubada por diversas forças durante séculos e emergiu como protagonista da sua própria história. Isso aconteceu sob a liderança do Comandante Chávez. As lutas populares impulsionaram Chávez ao Palácio de Miraflores, e ele, como um “infiltrado”, mudou as regras de um jogo que antes era reservado às elites.

Esse fenómeno não foi um acidente histórico. Não foi produto de um barril de petróleo a 120 dólares. Foi uma criação heroica, fruto de luta, pensamento crítico e um horizonte claro: o socialismo. Ao longo do caminho, erros foram cometidos, velhos vícios foram ignorados e novos surgiram. Devemos estar preparados para debater tudo isso com humildade e honestidade.

No entanto, não vamos renunciar a Chávez só porque o seu legado foi pisoteado por aqueles que representam o completo oposto do projeto bolivariano, mas se agarraram à imagem do Comandante para herdar uma legitimidade que nunca mereceram.

A revolução não acontece por meio de atalhos. A luta é também pela memória histórica.





Ramon Grosfoguel in Telegram

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