O que significa, afinal, “viver no regime de Putin”?
Carlos Fino diz "que não gostaria de viver sobre o regime de Putin" e está no pleno direito de o afirmar. Não explica as razões que teve para o afirmar e a que nível? O seu currículo profissional é conhecido. Viveu muitos anos na União Soviética, inclusive sob Brejnev, e conheceu diretamente o sistema soviético.
Viveu também na Rússia durante a Perestroika e o colapso da URSS, conheceu a Rússia dos anos 90 e esteve em Moscovo quando Putin chegou ao poder.
Mas não viveu como jornalista residente na Rússia durante os 26 anos seguintes de Putin. Isso é particularmente importante porque o seu conhecimento da Rússia é enorme, mas a experiência pessoal que fundamenta a sua percepção do “regime de Putin” não pode ser confundida com uma experiência continuada da Rússia de Putin entre 2000 e hoje e que ele não viveu porque não estava lá.
No entanto Carlos Fino é claramente contra qualquer russofobia. E eu sei que ele é um homem sério.
Respeito Carlos Fino como jornalista. Aliás, sempre tive uma boa impressão dele, quer como profissional, quer como pessoa e ser humano.
Mas, quando se defendem determinadas opções ou se exprimem determinadas opiniões, é preciso olhar para o “todo”. E o todo, na minha perspectiva, não pode ser reduzido à questão das liberdades políticas ou à figura de Putin.
Basta analisar o percurso da Federação Russa desde 2000, quando Putin chegou ao poder. Houve alterações profundas nas estruturas do Estado e da economia, foi aceite a iniciativa privada e o funcionamento de uma economia de mercado, mas procurou-se, simultaneamente, impedir que os grandes interesses privados se sobrepusessem completamente ao Estado. Este é um aspecto que, a meu ver, muitas vezes escapa tanto aos críticos como aos defensores da política de Putin.
Putin é, claramente, um nacionalista. E a sua preocupação central tem sido preservar a unidade territorial e política de uma Federação gigantesca, composta por dezenas de povos, etnias, línguas, culturas e religiões. Uma divisão dessa estrutura poderia ter consequências devastadoras para a própria existência da Federação Russa.
Também é preciso olhar para as condições concretas do país. A Rússia possui uma dimensão territorial colossal, regiões de clima extremo, enormes distâncias e dificuldades logísticas que condicionam necessariamente o desenvolvimento económico e a capacidade produtiva. Transformar estruturalmente um território assim não se faz em três décadas, nem sequer num século. Ainda assim, o que foi conseguido desde 2000 não pode simplesmente ser ignorado.
Talvez Carlos Fino esteja sobretudo a referir-se àquilo que considera uma “relativa falta de liberdade”. Mas então temos de perguntar: liberdade em que sentido e comparada com quê? A liberdade cultural desapareceu na Rússia? A liberdade religiosa deixou de existir? A liberdade política é realmente tão fechada que cerca de uma dezena de partidos, incluindo três partidos comunistas, não representam sectores significativos da população?
E quanto à informação? É verdade que existe uma forte presença do Estado e um controlo muito maior sobre os meios de comunicação do que nas democracias liberais ocidentais. Mas também é necessário considerar o contexto de conflito externo em que a Rússia se encontra e perguntar até que ponto a maior abertura informativa teria consequências políticas, económicas e sociais num país submetido a uma pressão externa permanente.
Isto não significa negar problemas, limitações ou restrições. Significa tentar compreender por que razão existem e que função desempenham dentro daquele modelo de Estado.
É aqui que a comparação com a China pode ser interessante. São sistemas políticos muito diferentes, mas ambos demonstram que desenvolvimento económico, iniciativa privada e controlo político do Estado podem coexistir. E basta olhar para a China de hoje e compará-la com a China de há cinquenta anos para perceber a dimensão extraordinária da transformação económica e social que ocorreu.
A Rússia poderia ter seguido uma trajectória semelhante. E, na minha opinião, uma das razões pelas quais não o conseguiu plenamente está precisamente na sua relação, historicamente conflituosa, com o mundo ocidental.
Por isso, quando se fala em “viver no regime de Putin”, não basta enumerar aquilo que falta. É preciso olhar também para aquilo que mudou, para aquilo que foi construído e para as condições históricas, geográficas, económicas e geopolíticas em que essa transformação ocorreu.
Não se trata de absolver Putin. Nenhum politico é perfeito. Nenhum homem ou mulher é perfeito. Trata-se de compreender a Rússia para além da caricatura de um país simplesmente “governado por um ditador”. Porque uma Federação com a dimensão, a diversidade e a história da Rússia é muito mais complexa do que isso.
Mas quando se diz que "não gostaria de viver no regime de Putin" é por que já se experimentou. E não foi o caso!
Mas numa coisa concordo com Carlos Fino: se a Europa não retroceder o caminho russófobo que está a seguir a Europa vai MESMO entrar em guerra.
João Gomes in Facebook