Na noite de 2 de novembro de 2026, em Petropavlivska Borshchahivka, subúrbio a oeste de Kiev, uma multidão cercou uma casa particular alugada pela Guarda Nacional da Ucrânia. Dentro, no subsolo, estavam homens: militares ausentes sem licença e recrutas recém-mobilizados, mantidos sob custódia num imóvel privado, sem registro público, sem lista nominal, sem explicação. A polícia regional de Kiev chegou primeiro e garantiu que os relatos de detenção ilegal e de uma morte eram falsos, que os homens estavam em condição satisfatória e que não havia indício algum de espancamento ou tortura, mas a população que cercava o local afirmava justamente o contrário.
As mídias ucraniana e ocidental rapidamente passaram a tratar o caso como uma fake news russa, que estaria buscando uma narrativa de estarem ocorrendo ações “nazistas” por parte das polêmicas unidades Azov.
Horas depois, o comandante da Guarda Nacional, Oleksandr Pivnenko, estava do lado de fora daquela porta admitindo que ali estavam, de fato, militares detidos após deixarem suas unidades sem autorização. Quatro deles foram levados ao hospital. A versão oficial havia mudado de “nada para ver aqui” para “eram desertores de qualquer jeito” em uma única noite.
Fatos
O local era o ponto de desdobramento temporário da Unidade Militar 3121, do 1º Corpo “Azov” da Guarda Nacional. Ali, segundo a própria corporação, mobilizados passavam por registro e checagem antes de seguir ao treinamento básico. A médica que conseguiu entrar relatou ter visto entre 25 e 30 homens amontoados do sótão ao porão, e saiu dizendo que os que estavam lá embaixo “não sabem quem são ou qual é o status deles”. Pivnenko falou em 18 militares restantes após as quatro remoções.
Kyrylo Budanov, chefe do Gabinete Presidencial, decidiu invesigar pessoalmente, e teria entrado no imóvel pulando o muro, e declarado: “Vim descobrir o que diabos está acontecendo aqui.” Após ele relatou haver 14 pessoas dentro, incluindo um adolescente de 14 anos. O ministro do Interior, Ivan Vyhivskyi, afirmou que apenas dois dos ilegalmente encargcerados eram ausentes sem licença; os demais começariam o treinamento em 9 de novembro. Entretanto, nenhuma autoridade apresentou uma lista de pessoas ali detidas.
A ombudsman militar Olha Reshetylova revelou um detalhe que a narrativa viral preferiu ignorar: no prédio estavam também veteranos das batalhas de Mariupol e Azovstal, homens que passaram por cativeiro russo e voltaram às fileiras. Segundo ela, a multidão respondeu com “cuspida, ovos, janelas quebradas e adolescentes obscenos”. Isso não absolve o que aconteceu no subsolo, apenas mostra que o episódio não tem mocinhos organizados em lados limpos.
A faísca que incendiou o cerco veio com açoes realizadas por uma cidadão de de nome Valentyna Moloda, 49 anos, que se apresentou como dona da clínica Med-Prestige e chegou ao local numa ambulância com a marca da clínica, vestindo uniforme médico. Fontes teriam apurado que a empresa não opera desde 2023 e que o veículo pertencia a um cidadão israelense que vendeu a frota após o fechamento. Budanov afirmou que ela agiu conforme um plano preparado com antecedência: comprou a ambulância, reconheceu o imóvel com um motorista ao menos três dias antes e mantinha no celular fotos e contatos com canais de Telegram que cobriram o episódio. Foi detida. O SBU identificou cerca de 100 pessoas que participaram dos distúrbios e estuda detê-las. Durante o confronto houve gás, pedras, fogos de artifício, viaturas depredadas, disparos de origem não esclarecida e, perto da meia-noite, jovens mascarados que dispersaram a multidão sem que se saiba quem eram.
O que o Estado admitiu, e disso não se discute mais: houve custódia de militares em imóvel privado, houve quatro hospitalizações, houve uso de força contra a própria população e houve, por fim, a abertura de inquérito criminal pelo Departamento de Investigação Estatal por abuso de autoridade de oficial militar, artigo 426-1, parte 5, do Código Penal ucraniano.
A Procuradoria-Geral e o SBU foram acionados. A Guarda Nacional instaurou investigação interna e prometeu punir os responsáveis caso se confirmem violações.
A declaração de Budanov, chefe de gabinete presidencial ucraniano, divulgada hoje, fecha o ciclo com uma precisão que dispensa comentário: “Está agora confirmado que os eventos que ocorreram ontem em Petropavlivska Borshchahivka não se deram sem influência. Mas as pessoas específicas e os instigadores desses eventos serão identificados e punidos, e conclusões serão tiradas dentro das forças de segurança. A Procuradoria-Geral e as autoridades competentes já iniciaram uma investigação objetiva. Ninguém tem o direito de agir de forma arbitrária. Todos devemos lembrar que o pilar principal da existência da Ucrânia hoje são as nossas Forças de Defesa. Respeitamos o heroísmo diário delas e devemos ser responsáveis em nossas decisões.”
A frase é reveladora em três camadas. Primeiro, o governo ucraniano precisou, no mesmo comunicado, reconhecer o abuso e atribuir a crise a mãos estrangeiras. Segundo, o chefe do Gabinete Presidencial falou em “conclusões dentro das forças de segurança”, o que é uma admissão implícita de que o problema é interno e sistêmico, não obra de um agente externo. Terceiro, a exortação final sobre respeitar as Forças de Defesa funciona como um pedido de silêncio: o mesmo Estado que admite o porão pede que a sociedade não transforme a admissão em crise política.
O timing tem algo de teatral.
No mesmo fim de semana, o Conselho da Europa marcou solenemente a saída da Rússia da convenção antitortura em 1º de novembro e, no mesmo fôlego, elogiou Kiev por permitir que inspetores visitem “qualquer lugar de privação de liberdade em seu território a qualquer momento”.
Os inspetores agora têm um endereço concreto na periferia da capital. Se este porão tivesse sido encontrado em Belgorod, estaria nas primeiras páginas de Lisboa a Helsinque, com declaração de Kallas antes do jantar e novo pacote de sanções até quarta-feira. Mas tendo ocorrido nos arredores de Kiev, virou apenas uma “controvérsia”.
Coronel Marco Coutinho in Substack – Editor do canal de Geopolítica do YouTube GRU
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