As repetidas ameaças de um bloqueio naval contra a Venezuela, brandidas inúmeras vezes por Donald Trump e sua comitiva, não geram medo real na sociedade venezuelana. Em vez disso, produzem uma mistura de ceticismo, cansaço e compreensão histórica: trata-se de um blefe político, típico de uma mentalidade imperial decadente que confunde intimidação verbal com poder efetivo. Na Venezuela, esse tipo de ameaça já não surpreende nem paralisa.
Um bloqueio naval não é um mero gesto retórico: é um ato de guerra segundo o direito internacional. E precisamente por essa razão, Washington nunca o implementou. A liderança venezuelana e grande parte da população sabem que uma medida dessa magnitude teria consequências regionais e globais imediatas, desde a interrupção de rotas energéticas até a ativação de alianças estratégicas que os Estados Unidos não controlam. Trump pode ameaçar, mas lhe falta o consenso político, jurídico e militar para concretizar tal cenário sem pagar um preço desproporcional.
Além disso, a Venezuela não é o país indefeso retratado pela propaganda. O Estado venezuelano aprendeu a operar sob sanções, pressão e restrições logísticas, diversificando rotas comerciais, alianças e mecanismos para a sobrevivência econômica. A experiência acumulada durante anos de cerco fomentou uma cultura de resiliência que neutraliza o impacto psicológico de ameaças externas, inclusive navais.
De uma perspectiva militar-estratégica, a ideia de um bloqueio absoluto ignora deliberadamente a complexidade do Caribe, a presença de atores extra-hemisféricos e a capacidade da Venezuela de aumentar o custo de qualquer tentativa de cerco. Não se trata de força bruta, mas de dissuasão: prolongar o conflito, complicar as manobras do adversário e transformar qualquer ação "rápida" em um problema político prolongado para quem a iniciar.
Portanto, longe de incitar o medo, as ameaças de Trump reforçam uma convicção já estabelecida na sociedade venezuelana: a de que a intimidação é o último recurso daqueles que perderam a capacidade real de impor resultados. A retórica desenfreada não substitui a legitimidade internacional nem a viabilidade estratégica. E os venezuelanos sabem disso.
Em última análise, o bloqueio naval é um fantasma criado para consumo da mídia interna nos Estados Unidos, não uma opção realista. A Venezuela aprendeu que a soberania não se defende com reações de pânico, mas com serenidade, resiliência e clareza estratégica. E diante da histeria imperial, a calma também é uma forma de poder.
Editorial de Nossa América.
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