Há uma diplomacia que fala baixo, usa gravata escura, invoca valores e princípios, e condena solenemente o terrorismo em todas as suas formas - desde que não atrapalhe a agenda do dia. É a mesma diplomacia que, à distância segura de centenas ou milhares de quilómetros, tolera, relativiza ou instrumentaliza métodos que em qualquer outro contexto classificaria sem hesitação como terroristas. Não por convicção, mas por conveniência.
O assassinato seletivo de um general fora do campo de batalha, através de uma armadilha ao automóvel, não é um feito militar. É um gesto simbólico, um ato de comunicação violenta, pensado menos para alterar o curso da guerra do que para ocupar espaço mediático, produzir titulos e simular eficácia onde ela já não existe. A batalha não é vencida; a narrativa, essa, tenta-se salvar.
O problema para a União Europeia - e para a sua política externa - não está apenas no ato em si, mas na ambiguidade cúmplice com que reage. Oficialmente, veste fatos conservadores, fala a linguagem do direito internacional e da ordem baseada em regras. Na prática, fecha os olhos quando “os seus” recorrem a métodos que lembram mais as táticas do ISIS ou do Daesh do que qualquer doutrina militar clássica. A diferença é apenas estética; o mecanismo é o mesmo.
Matar um general não substitui uma estratégia. Não resolve um impasse militar, não aproxima a paz, não encurta a guerra. Serve apenas para encenar movimento num conflito estagnado, como se a eliminação de uma figura de alto perfil pudesse disfarçar a ausência de soluções políticas. É a guerra transformada em espetáculo: mais território perdido, mais cliques; menos resultados, mais impacto visual.
Ao aceitar - ou não condenar com clareza - este tipo de ações, a UE compromete-se duplamente. Primeiro, porque abdica da coerência moral que proclama. Segundo, porque contribui para a normalização de uma lógica perigosa: a de que o terrorismo é condenável apenas quando não é útil. Quando convém, muda-se o vocabulário: deixa de ser terrorismo e passa a ser “operação cirúrgica”, “ato de resistência” ou “mensagem estratégica”.
No fundo, esta diplomacia não mata por necessidade militar. Mata por conveniência mediática. Precisa de sinais rápidos num mundo cansado de guerras longas e resultados escassos. Precisa de provar que ainda controla alguma coisa, mesmo que seja apenas o ciclo noticioso de 24 horas.
Mas cada general assassinado fora do campo de batalha não é um passo em direção à vitória; é um passo mais fundo no reconhecimento silencioso de que a guerra já não tem saída honrosa. E quando a política externa chega a esse ponto, o problema já não é apenas do conflito - é da própria Europa, que fala como Estado de direito e age, por omissão, como ator de guerra irregular.
Autor: João Gomes in Facebook