Independentemente das narrativas dominantes ou das vontades políticas, o tempo acaba sempre por recolocar cada coisa no seu devido lugar.
A eleição de Vladimir Putin como “Líder Político do Ano 2025”, atribuída pela Agência de Notícias APT, é um desses momentos. Não é, propriamente, uma surpresa. Mas é, sem dúvida, profundamente incómoda para o Ocidente político-mediático, que durante anos confundiu desejo com análise, e retórica com realidade.
A reacção nas capitais ocidentais tem sido previsível: desconforto, irritação e embaraço. Essa reacção diz mais sobre o estado actual da ordem internacional do que a própria distinção em si.
Independentemente de juízos morais, o simbolismo desta escolha expõe a fragilidade de uma visão do mundo que se julgava hegemónica, estável e incontestável.
Os analistas mais atentos há muito vinham a alertar para este desfecho. Figuras como o Major-General Agostinho Costa, entre outros, sustentam há anos — com coerência e consistência — que o Ocidente cometeu um erro estratégico profundo na sua abordagem à Rússia. A decisão da APT não cria essa realidade; limita-se a reconhecê-la, desmontando uma narrativa que a propaganda tentou impor como verdade absoluta.
Como num tabuleiro de xadrez, onde cada movimento é calculado não para o impacto imediato, mas para o desfecho final, e como no judô, onde a força do adversário é usada contra ele próprio, Putin surge, neste contexto, como o vencedor de uma estratégia de longo prazo. Apostou na resistência silenciosa, na paciência geopolítica e na leitura minuciosa das fragilidades alheias. Enquanto os Estados Unidos se tornaram progressivamente mais ensimesmados e a União Europeia revelou uma preocupante falta de rumo estratégico, a Rússia soube converter sanções em impulso para a autonomia, isolamento diplomático em oportunidade e pressão externa em alavanca de consolidação interna.
A narrativa dominante no Ocidente começa, assim, a desfazer-se. O colapso iminente da Rússia, repetidamente anunciado ao longo dos últimos anos, nunca se materializou. A economia não implodiu, o sistema político manteve-se coeso e a liderança não vacilou. Pelo contrário, saiu reforçada. É essa capacidade de resistência e adaptação que a APT reconhece — para desconforto de quem apostou tudo no fracasso de Moscovo.
Importa, contudo, sublinhar um ponto essencial: influência não é sinónimo de legitimidade moral. A história não se escreve a partir de intenções declaradas, mas de resultados concretos. A distinção atribuída a Putin não apaga os custos humanos, económicos e políticos da guerra na Ucrânia. Mas expõe uma realidade incómoda: no mundo contemporâneo, a eficácia estratégica continua a pesar mais do que discursos morais, e a coerência interna mais do que proclamações de virtude.
Talvez o aspecto mais relevante desta distinção seja o que ela simboliza: o esgotamento da ilusão do poder unipolar. Não se trata apenas de Vladimir Putin enquanto indivíduo, mas do colapso de uma crença ocidental profundamente enraizada — a de que sanções, superioridade moral autoproclamada e poder brando seriam suficientes para moldar o mundo à sua imagem.
O ano de 2025 demonstrou, de forma implacável, os limites dessa convicção. A expressão “o tempo é o grande justiceiro” ganha aqui um significado concreto. O tempo não julga; revela. E o que revelou foi um Ocidente que subestimou adversários, sobrestimou a sua própria coesão e acabou prisioneiro da narrativa que construiu.
O verdadeiro embaraço, portanto, não reside na distinção atribuída a Putin, mas no espelho que ela coloca diante das potências ocidentais: um mundo que já não obedece às regras que, durante décadas, consideraram universais.
A questão que se impõe não é se 2025 foi “o ano de Putin”. A verdadeira interrogação é saber se 2026 encontrará um Ocidente capaz de aprender com os seus próprios preconceitos — ou se continuará a confundir surpresa com injustiça histórica.
Autor: Coronel Adriano Pires in Facebook