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Dinheiro, poder e financiamento
Publicado em 03/01/2026 15:00
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Há salários e há remunerações. Os primeiros servem para constar nos comunicados oficiais; as segundas existem para garantir que o poder nunca passa necessidades. Christine Lagarde recebe um “salário” de cerca de 416 mil euros por ano. É um número bonito, redondo, apresentável. Um número que cabe num gráfico e tranquiliza consciências. O resto - subsídios, benefícios, suplementos vários - não é bem salário, é outra coisa qualquer. Tão outra que eleva o total para perto de 770 mil euros sem fazer grande ruído.

 

Não se trata de ilegalidade, note-se. Trata-se de engenharia moral. Nos corredores do poder financeiro, a transparência funciona como a inflação: é sempre transitória e seletiva. Quando o assunto é pedir contenção aos Estados, rigor às contas públicas ou moderação salarial aos cidadãos, tudo é claro, pedagógico e inegociável. Quando chega a hora de explicar quanto ganham os guardiões da virtude monetária, a clareza torna-se subitamente técnica, dispersa e difícil de apurar.

 

O mais curioso é o contraste. O presidente da Reserva Federal norte-americana, Jerome Powell, ganha cerca de 190 mil dólares por ano. Um valor quase austero para quem dirige o banco central da maior economia do mundo. Já no BCE, o poder paga-se melhor - não por mérito excessivo, mas por tradição institucional. Afinal, a Europa pode ser frugal com os povos, mas nunca com os seus tecnocratas.

 

Dir-se-á que o problema não é o montante, mas a comunicação. É verdade. Porém, a forma como se comunica o dinheiro diz muito sobre como se exerce o poder. Quando a remuneração real é escondida atrás de notas de rodapé e estruturas opacas, a mensagem é simples: há quem viva das regras e há quem viva acima delas.

 

No fim, esta história não é sobre Christine Lagarde. É sobre um sistema que exige sacrifício em nome da estabilidade enquanto remunera generosamente quem define o que é “responsável”. Dinheiro, poder e financiamento - uma trindade que, curiosamente, nunca precisa de apertar o cinto.

 

 

Autor: João Gomes in Facebook

 

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