Diante da invasão dos Estados Unidos à Venezuela e do sequestro do Presidente Constitucional Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, queremos repudiar a ação criminosa do governo de Trump, que pretende retornar à nefasta Doutrina Monroe para submeter os povos da América Latina e do Caribe.
A invasão à Venezuela é uma agressão contra todo o continente latino-americano e, em particular, contra os governos populares que defendem a soberania política e econômica. O chamado "Corolário Trump" da Doutrina Monroe, exposto na estratégia do Documento de Segurança Nacional, visa recuperar a preeminência dos Estados Unidos sobre o Hemisfério Ocidental, principalmente a América Latina.
Todos os países da América Latina estão ameaçados e violentados pelo império, que ainda considera todo o continente como seu "quintal".
Não são novas as intervenções militares dos EUA; basta lembrar, entre tantas, as de Santo Domingo, Granada e Panamá, onde sequestraram e prenderam o general Noriega, invadindo o Panamá em 1989 e deixando mais de 1200 mortos em Los Chorrillos, com total impunidade. Mas, desta vez, a escalada militar supera os antecedentes imperiais anteriores.
O deslocamento de porta-aviões e navios de escolta no Caribe, as mortes provocadas por Trump no Mar do Caribe contra barcos pesqueiros, o sequestro de petroleiros e os crimes cometidos em várias partes do mundo o apontam como um criminoso que deve ser julgado pelo Tribunal Penal Internacional.
Os bombardeios à Venezuela e o sequestro de seu presidente e sua esposa, assim como as ameaças aos governos da Colômbia, México, Nicarágua e Cuba, que tiveram a coragem de denunciar as ameaças à soberania dos povos, evidenciam a estratégia da potência hegemônica de quebrar todos os consensos do Direito Internacional, Pactos, Protocolos, Convenções e Tratados de Direitos Humanos, para impor pela força o saqueio e a submissão dos povos.
Trump, em sua desesperação por perder a hegemonia mundial, busca assegurar os recursos petrolíferos e naturais da América Latina.
A mentira é a mãe da violência, e os EUA a utilizam para justificar sua agressão a outros países, como para declarar guerra ao Iraque, acusando Saddam Hussein de possuir "armas de destruição em massa" — nunca encontradas. Hoje, acusa Maduro de ser o chefe do narcotráfico e traficante de armas, usando isso como desculpa para sequestrá-lo na Venezuela e tentar julgá-lo em tribunais norte-americanos. Que garantia ele poderá ter se já o condenaram antes de julgá-lo?
O próprio Trump acaba de perdoar o ex-presidente de Honduras, Juan Orlando Hernández, condenado a 45 anos de prisão por narcotráfico, o que evidencia que não lhe interessa o combate ao narcotráfico, usando-o apenas como desculpa para legitimar o uso da força de acordo com os interesses do Império.
Não posso deixar de salientar que dói e indigna a cumplicidade e o silêncio de governantes da América Latina e do mundo diante desta transgressão ao direito internacional, como invadir um país e sequestrar seu presidente. Transgrediu-se uma linha vermelha, que é o respeito à soberania e à autodeterminação dos povos.
Os povos latino-americanos devem enfrentar governos de direita que vivem submetidos ao colonialismo dos EUA, como o da Argentina, de Javier Milei, entre outros, que endossam a ação do Império. Chegado o momento, terão de prestar contas de seus atos perante o povo e a justiça. "Aquilo que semeias, colherás".
Diante desta situação, devemos convocar uma "REBELIÃO DA CONSCIÊNCIA DOS POVOS" que promova todas as ações de resistência e mobilização para enfrentar este novo colonialismo. Não devemos aceitar o sistema de dominação e saque que pretende aprofundar a dependência econômica, política, cultural e espiritual.
Já o anunciou com clarividência profética o Libertador Simón Bolívar: "Os Estados Unidos parecem destinados pela Providência a plagiar a América de misérias, em nome da liberdade".
Por isso, é imprescindível agir com urgência em defesa da soberania e autodeterminação dos povos.
As Nações Unidas devem se pronunciar sobre os crimes cometidos por Trump, impedir que ele aja com total impunidade, o que gera um perigo para a vida e a segurança mundial. Sabemos dos limites do sistema multilateral, mas, ainda assim, é preciso intervir em defesa do direito internacional.
Quero me dirigir ao povo dos Estados Unidos: muitos setores não compartilham a política de agressão e violência do governo de Trump, enquanto internamente sofrem graves situações a população mais necessitada, os migrantes, os jovens, os pobres e os discriminados. Diante das contínuas violações e do desrespeito ao Estado de Direito, o povo deve pedir explicações por seus atos e exigir sua renúncia à presidência dos EUA.
É indispensável que as igrejas, organizações sociais, políticas e culturais, os sindicatos e líderes políticos saiam às ruas para se mobilizar e impor limites a um governante que coloca em perigo a paz mundial. Devem agir antes que seja tarde. São as mobilizações que podem garantir a defesa da democracia e do direito.
OS POVOS NÃO PODEM SER ESPECTADORES PASSIVOS QUANDO ESTÁ EM JOGO A LIBERDADE E A SOBERANIA DE NOSSOS IRMÃOS E IRMÃS NO CONTINENTE.
O CHAMADO À REBELIÃO DAS CONSCIÊNCIAS É UMA CONVOCAÇÃO À ESPERANÇA E À LIBERTAÇÃO DOS POVOS. DEVEMOS BUSCAR A UNIDADE NA DIVERSIDADE EM NOSSO CONTINENTE, COM BASE NA SOLIDARIEDADE DOS POVOS.
DENUNCIAR A VIOLÊNCIA CONTRA A VENEZUELA E AS AMEAÇAS CONTRA CUBA, COLÔMBIA, BRASIL, NICARÁGUA, PERANTE OS ORGANISMOS NACIONAIS, REGIONAIS COMO A OEA — SILENCIADA PELOS EUA — E ORGANISMOS INTERNACIONAIS, A ONU, PARLAMENTOS.
DECLARAR UM DIA DE REBELIÃO DAS CONSCIÊNCIAS DOS POVOS, PARALISAÇÃO CONTINENTAL, MOBILIZAÇÃO E REFLEXÃO DOS DIVERSOS SETORES SOCIAIS, POLÍTICOS, CULTURAIS E RELIGIOSOS, PARA ENCONTRAR ALTERNATIVAS LIBERTADORAS QUE UNIFIQUE A PÁTRIA GRANDE.
Na IV Cúpula das Américas, realizada em 5 de novembro de 2005, em Mar del Plata, os presidentes da Argentina, Brasil, Venezuela, Uruguai e Paraguai se uniram para se opor à ALCA, um tratado de livre comércio que pretendia aprofundar o neoliberalismo e um modelo neocolonial na região. Hoje, o império volta com os mesmos objetivos, agora pela via armada. Pudemos derrotar a ALCA, derrotaremos agora o retorno da Doutrina Monroe. A SOBERANIA DOS POVOS NÃO SE NEGOCIA.
Adolfo Pérez Esquivel 3-1-26 SERPAJ- AL