A Venezuela não governa no vazio. Governa sob sanções, sob vigilância e sob uma correlação de forças internacionais que lhe é estruturalmente desfavorável. As decisões recentes da presidência interina, nomeadamente a abertura parcial do setor petrolífero e a aceitação de condições impostas por Washington, devem ser lidas menos como uma viragem estratégica e mais como um exercício de sobrevivência política e económica num tabuleiro estreito.
Depois de mais de uma década de sanções financeiras, bloqueios comerciais e isolamento diplomático promovidos pelos Estados Unidos e os seus aliados, o Estado venezuelano viu-se privado dos instrumentos básicos de gestão macroeconómica: acesso a crédito, capacidade de refinanciamento da dívida, circulação normal de receitas petrolíferas e até importação regular de bens essenciais. Neste contexto, falar em “livre escolha” é, no mínimo, um luxo retórico.
A abertura controlada do setor petrolífero a capitais privados surge, assim, como uma tentativa de aliviar o estrangulamento imediato da economia, recuperar capacidade produtiva e gerar fluxos mínimos de receita num cenário em que a alternativa não é a soberania plena, mas a paralisia prolongada. Não se trata de abdicar do controlo nacional sobre os recursos, mas de criar uma válvula de oxigénio num sistema mantido sob pressão constante.
A aceitação de licenças e enquadramentos legais exigidos pelos Estados Unidos deve ser compreendida dentro desse mesmo realismo forçado. A atual administração norte-americana, liderada por Trump, ainda não deixou claras as suas linhas definitivas para a América Latina, mas tudo indica que a lógica de coerção económica continuará a ser um instrumento central da sua política externa. Perante essa incerteza, Caracas opta por ganhar tempo.
Ganhar tempo para quê? Para estabilizar minimamente a economia interna, para recompor alguma margem de manobra financeira e para aguardar uma definição mais clara do quadro internacional. As opções da Venezuela, nesta fase, são objetivamente curtas. A escolha não é entre submissão e soberania absoluta, mas entre rigidez ideológica e capacidade de manobra.
Importa sublinhar que estas decisões não significam, por si só, um rompimento com parceiros históricos como Rússia, China, Irão ou Cuba. Esses laços continuam a existir no plano político, diplomático e estratégico. O que está em curso é uma gestão tática de constrangimentos específicos impostos pelo regime de sanções norte-americano, e não uma redefinição estrutural das alianças internacionais do país.
Num sistema internacional cada vez mais fragmentado, em que o poder financeiro dos Estados Unidos continua a ter efeitos extraterritoriais profundos, a Venezuela tenta navegar entre dois riscos: o do isolamento absoluto e o da dependência excessiva. O caminho escolhido é imperfeito, controverso e cheio de ambiguidades, mas reflete uma realidade dura: governar sob sanções não é governar livremente.
A história recente mostra que os países submetidos a bloqueios prolongados acabam, mais cedo ou mais tarde, por ser forçados a negociar espaços de alívio. A questão central não é se o fazem, mas como e por quanto tempo conseguem preservar margem de decisão própria enquanto o fazem.
A Venezuela encontra-se, hoje, exatamente nesse ponto de equilíbrio instável: entre as sanções e o alívio, entre a resistência e a adaptação, entre o curto prazo da sobrevivência económica e o longo prazo da soberania nacional. O desfecho dependerá menos das intenções declaradas de Caracas e mais da evolução das políticas de Washington - e da capacidade do mundo multipolar emergente de oferecer alternativas reais à coerção económica.
Não se deve - ainda - falar de traição á causa bolivariana. Deve-se, sim, falar de assumir a gestão possível da crise politica.
Autor: João Gomes in Facebook