A Europa domina a arte da indignação calibrada. Sabe quando levantar a voz, quando impor sanções, quando congelar ativos, quando expulsar diplomatas - e, sobretudo, sabe quando não fazer absolutamente nada.
Perante a Invasão da Ucrânia em 2022 pela Rússia, a União Europeia reagiu com uma rapidez e uma contundência exemplares: sanções em cascata, isolamento diplomático, punição económica sistemática. A mensagem era clara - há linhas vermelhas que não podem ser ultrapassadas. Mas as linhas, afinal, parecem ter geografia.
Quando o autor muda para Israel, o tom altera-se. Já não há urgência, nem firmeza, nem consequências. Há “preocupação”, há “apelos à contenção”, há declarações cuidadosamente redigidas para não comprometer relações estratégicas. A linguagem endurece apenas o suficiente para parecer moral, mas nunca o bastante para produzir efeitos.
E quando os estilhaços atingem até forças internacionais - como elementos da UNIFIL, sob mandato das Nações Unidas - nem isso parece romper o padrão. O que seria, noutro contexto, um incidente de gravidade extrema, aqui dissolve-se em notas diplomáticas e pedidos de esclarecimento. Nada que perturbe verdadeiramente o equilíbrio das relações.
A Europa, que se quer apresentar como guardiã do direito internacional, revela então a sua face mais pragmática: os princípios aplicam-se com rigor… desde que não colidam com interesses estratégicos. Quando colidem, reinterpretam-se. Ou suspendem-se.
Não se trata apenas de incoerência. Trata-se de um mecanismo mais subtil: a normalização da exceção. Ao reagir com firmeza num caso e complacência noutro, a Europa não está apenas a escolher lados - está a redefinir, na prática, o alcance dos valores que proclama universais.
É aqui que a palavra incómoda emerge: colaboração. Não no sentido clássico, direto, coordenado - mas numa forma mais difusa e contemporânea. Uma colaboração por omissão, por cálculo, por conveniência. Não é necessário apoiar explicitamente para contribuir; basta não impedir. Porque no sistema internacional, o custo das ações depende tanto de quem age como de quem permite. E quando não há consequências, há incentivo.
A hipocrisia, neste caso, não é um desvio - é o próprio método. Uma ferramenta de gestão política que permite conciliar discurso moral com prática estratégica. Uma duplicidade que preserva alianças enquanto mantém a aparência de coerência.
A Europa continua a falar em regras, em ordem, em legalidade. Mas fala com voz seletiva. E essa seletividade - mais do que qualquer declaração - é o que verdadeiramente define a sua posição no mundo. A Europa não é um árbitro imparcial, é um participante interessado num jogo onde os princípios são, afinal, negociáveis.
João Gomes in Facebook