Solidarizar-se com Cuba não é um gesto secundário nem uma concessão sentimental na rectórica da caridade; é, no seu sentido mais profundo, uma afirmação histórica do futuro. Não se trata de um acto moral isolado, mas de uma prática consciente que desafia a própria estrutura das relações sociais contra o capitalismo contemporâneo.
Ali onde a ordem dominante pretende submeter todas as relações humanas ao cálculo mercantil, a solidariedade com Cuba surge como uma negação activa dessa lógica, como uma prática que revela a possibilidade concreta de organizar a vida com base em princípios distintos: cooperação em vez de competição, dignidade em vez de lucro, comunidade em vez de atomização.
Porque a experiência cubana, longe de ser um objecto exótico para uma contemplação distante, constitui um campo de tensões onde se expressa, com particular clareza, a luta de classes à escala internacional. A sua persistência não pode ser compreendida sem ter em conta a hostilidade sistemática que enfrenta: bloqueio económico, agressões mediáticas, sabotagens financeiras, isolamento diplomático. Estas formas de violência não são anomalias, mas instrumentos estruturais de uma ditadura económica que castiga toda a tentativa socialista. Neste contexto, a solidariedade não é um complemento ético, mas uma necessidade estratégica.
Defender Cuba é, em última análise, defender a própria possibilidade de os povos decidirem o seu destino sem se submeterem à ditadura do capitalismo na sua fase imperial.
Reduzir a solidariedade à filantropia implica despolitizá-la, despojá-la do seu conteúdo histórico e transformá-la num gesto compatível com a ordem existente. A filantropia, na sua versão burguesa, não questiona as causas da desigualdade; limita-se a administrar os seus efeitos, reproduzindo assim a estrutura que diz aliviar. A solidariedade revolucionária, por outro lado, situa-se no terreno da causalidade, não procura mitigar a injustiça, mas abolir as condições que a produzem. Por isso, solidarizar-se com Cuba não consiste em “ajudar” a partir de uma posição de superioridade, mas em reconhecer-se na mesma trama de exploração e resistência. É um acto de identificação material com uma luta que ultrapassa as fronteiras nacionais.
E a consciência de classe encontra neste vínculo um momento de expansão qualitativa. Num mundo em que a ideologia dominante promove a fragmentação, a competição e o individualismo, a solidariedade internacionalista reconstrói a unidade dos explorados enquanto sujeito histórico. Não se trata de uma abstração moral, mas de uma mediação concreta, a compreensão de que as condições de vida dos trabalhadores em qualquer parte do mundo são determinadas por uma mesma lógica de acumulação que opera à escala global. Assim, a defesa de Cuba não é uma questão “externa”, mas uma dimensão da luta interna contra as formas locais de dominação.
Essa ofensiva ideológica imperialista contra Cuba visa precisamente impedir essa compreensão. Através da saturação mediática, da distorção da informação e da fabricação de calúnias, procura-se incutir a ideia de que o modelo cubano é um fracasso intrínseco, uma anomalia condenada pela sua própria natureza. Este relato oculta deliberadamente as condições materiais em que se desenvolve a experiência cubana, ignorando o peso decisivo do bloqueio e das agressões externas. Mas, mais ainda, procura neutralizar o poder simbólico de Cuba como referência revolucionária. A batalha, portanto, não é apenas económica ou política, mas semiótica; disputa-se o próprio sentido do possível.
Neste terreno, a solidariedade adquire uma dimensão comunicacional decisiva. Não basta denunciar as agressões; é necessário construir um campo de significação revolucionário que permita compreender a experiência cubana na sua complexidade e densidade histórica. Isto implica romper com as categorias impostas pela ideologia dominante e elaborar uma linguagem capaz de nomear a realidade a partir da perspectiva dos povos. A solidariedade torna-se assim uma prática de produção de sentido, uma intervenção consciente na luta pela hegemonia cultural. Cuba representa, na sua forma concreta, uma organização social que desafia a propriedade privada dos meios de produção e a subordinação da vida ao capital. Esta tentativa não é perfeita nem está isenta de contradições, mas a sua própria existência constitui uma ameaça para a ordem dominante e é atacada com intensidade.
E por isso a sua defesa assume um carácter estratégico para superar o capitalismo. A solidariedade, neste sentido, não é uma opção entre outras, mas sim uma condição de possibilidade para a construção de alternativas históricas. A fraternidade revolucionária, como horizonte do novo, não pode ser reduzida a um slogan vazio. É uma prática que exige organização, empenho e clareza teórica. Implica reconhecer que a emancipação não será o resultado de acções isoladas, mas de um processo colectivo que articule lutas diversas num projecto comum. Neste contexto, a relação com Cuba não deve ser entendida como uma adesão acrítica, mas como um diálogo activo, uma interacção que permita aprender com as suas conquistas e dificuldades, integrando essa experiência numa perspetiva mais ampla de transformação social.
Porque o futuro que se afirma na solidariedade com Cuba não é uma promessa abstracta, mas uma possibilidade inscrita nas contradições do presente. Aí onde o capitalismo revela os seus limites — crises recorrentes, desigualdade crescente, devastação ambiental —, surge a necessidade de pensar e construir formas de vida alternativas. Cuba, com todas as suas tensões, encarna uma dessas formas possíveis. Defendê-la é, portanto, defender a abertura da história face ao fechamento imposto pelo capital. A solidariedade revolucionária com Cuba é uma forma de autodefesa histórica.
Não se trata apenas de proteger um país, mas de preservar a possibilidade de imaginar e construir um mundo diferente. Numa época em que a ideologia dominante insiste que não há alternativas, cada gesto de solidariedade afirma o contrário: que a história não está fechada, que o futuro não está determinado, que a emancipação continua a ser uma tarefa em aberto. E essa afirmação, longe de ser um acto de fé, é uma prática concreta que se insere na luta quotidiana dos povos.
Assim, a solidariedade deixa de ser um mero adorno moral para se tornar uma ferramenta de transformação. Não é caridade, é consciência; não é assistência, é aliança; não é passado, é futuro. Nela se condensa a certeza de que a emancipação não será um presente, mas uma conquista colectiva, e que essa conquista começa ali onde os povos se reconhecem mutuamente como protagonistas de uma mesma história em disputa.
Autor: Fernando Buen Abad Domínguez | Doutor em Filosofia
Fonte: La Jornada
https://www.jornada.com.mx/2026/03/25/opinion/015a1pol