O conflito no Irão deixou de ser apenas uma disputa ideológica ou estratégica e passou a representar algo mais profundo: a própria definição de sobrevivência política de um Estado.
Durante anos, a questão nuclear iraniana foi tratada no plano diplomático, com avanços e recuos, mas sempre dentro de um quadro negocial reconhecido internacionalmente. As conversações sobre o programa de energia atómica, embora frágeis, constituíam uma via realista para contenção do inicio de um conflito. Esse processo, contudo, foi abruptamente interrompido por uma escalada militar que incluiu ataques diretos por parte de Israel e dos Estados Unidos, alterando radicalmente o equilíbrio estratégico e as negociações em curso.
Mais grave ainda, na fase inicial do conflito foram eliminadas figuras centrais da estrutura iraniana, incluindo líderes políticos, militares e até interlocutores envolvidos em eventuais negociações de cessação de hostilidades. Este tipo de ação não apenas enfraqueceu os canais diplomáticos - destruiu-os.
Ao eliminar negociadores, eliminou-se também a possibilidade de compromisso imediato, empurrando o adversário para uma lógica de resistência total.
Do ponto de vista ocidental, a destruição de estruturas e a morte de mais de dois mil cidadãos iranianos poderá parecer um fator de pressão suficiente para forçar uma mudança de postura. No entanto, essa leitura ignora completamente a memória estratégica do próprio Irão. Durante a guerra com o Iraque, o país suportou perdas humanas superiores a seiscentos mil mortos sem abdicar da sua linha política e militar. Esse precedente molda profundamente a sua cultura estratégica: o custo humano, por mais elevado que seja, não é necessariamente determinante na tomada de decisão.
É neste contexto que emerge uma das variáveis mais críticas do atual cenário: o Estreito de Ormuz. O controlo dessa passagem marítima representa uma das mais poderosas alavancas geoeconómicas à disposição do Irão. Por ali transita uma parcela significativa do petróleo mundial, tornando qualquer perturbação imediatamente visível nos mercados globais.
Ao manter essa capacidade de pressão, o Irão não atua apenas no plano militar, mas sobretudo no plano sistémico. A mensagem implícita é clara: a continuação da escalada terá consequências económicas globais severas, potencialmente desencadeando uma crise energética de grande escala. Perante esse risco, as principais economias mundiais poderão ver-se compelidas a intervir politicamente, não por alinhamento ideológico, mas por necessidade económica.
Dessa forma, cria-se um paradoxo estratégico. Enquanto os Estados Unidos e o seu aliado procuram conter o Irão através da força, o próprio Irão pode procurar forçar uma contenção inversa - pressionando o sistema internacional a agir sobre Washington, em nome da estabilidade dos mercados e da prevenção de uma crise global.
Neste enquadramento, a alternativa iraniana de “lutar até ao fim” não deve ser interpretada como mera retórica. Trata-se de uma posição coerente com a sua história recente, com a sua estrutura de poder e com a sua leitura do equilíbrio internacional.
Quando os canais diplomáticos são destruídos, quando as perdas humanas são internalizadas como custo aceitável e quando existem instrumentos de pressão sistémica disponíveis, a escalada deixa de ser um risco - passa a ser uma estratégia.
A questão que permanece é saber até que ponto o sistema internacional conseguirá absorver esse choque antes de ser forçado a impor uma solução. Porque, se há algo que a história demonstra, é que conflitos desta natureza raramente terminam por exaustão interna. Terminam, quase sempre, quando o custo global se torna insustentável para todos. E, se tal acontecer - mesmo repleto de mazelas nas suas infraestruturas e com muitos mortos - o irão venceu o conflito.
João Gomes in Facebook