Contra tudo e contra todos, de incredulidade em incredulidade, assim avança o projeto de poder pessoal de Donald Trump e dos seus apoiantes mais próximos.
A proposta de um aumento histórico dos gastos militares, financiado por cortes profundos em áreas sociais essenciais, não é apenas uma opção política controversa — é um sinal preocupante de erosão democrática e de possível declínio do poder americano, como alertam Levitsky e Ziblatt em How Democracies Die.
Num momento em que uma parte significativa da sociedade norte-americana demonstra cansaço face ao belicismo e à lógica de confrontação permanente, exigindo respostas para problemas internos urgentes — como o acesso à saúde, à habitação e à educação —, a resposta política segue na direção oposta: menos investimento na qualidade de vida, mais investimento na máquina militar.
Não se trata, portanto, de segurança nacional. Trata-se de prioridades políticas.
Trata-se de uma visão de poder que parece dissociada das necessidades reais da população. O contraste com outras experiências internacionais — nomeadamente o discurso do governo chinês sobre redução da pobreza — reforça a perceção de um desfasamento crescente entre governação e bem-estar social.
Os cortes propostos em setores-chave e o enfraquecimento de instituições como a Environmental Protection Agency não são decisões isoladas. Integram uma lógica mais ampla: a de subordinar o interesse coletivo a uma estratégia de poder que privilegia a força em detrimento da coesão social.
As manifestações que se multiplicam por todo o território dos Estados Unidos refletem esse mal-estar. Mais do que contestação pontual, revelam uma fratura estrutural entre governantes e governados.
E essa fratura levanta uma questão fundamental: o que acontece quando um Estado investe mais na sua capacidade de projeção de força do que na dignidade dos seus cidadãos?
A história oferece pistas. Como observou Karl Marx, os impérios em declínio tendem a tornar-se mais agressivos externamente à medida que enfrentam fragilidades internas. O militarismo, nesse contexto, não é sinal de força, mas sintoma de insegurança.
Os Estados Unidos parecem atravessar um momento desse tipo. A insistência numa agenda centrada na afirmação militar, em detrimento da resposta a problemas estruturais internos, expõe uma tensão crescente no modelo democrático.
Não está em causa apenas uma escolha orçamental. Está em causa uma orientação moral e política com implicações profundas para o futuro do país e para o seu papel no mundo.
Um Estado que se afasta das necessidades do seu povo arrisca perder mais do que legitimidade interna — arrisca perder autoridade moral externa.
E esse é, talvez, o mais claro sinal de declínio.
Coronel Adriano Pires in Facebook