Do ponto de vista da solidariedade internacional, nunca foi fácil ver a Revolução Bolivariana resistir à constante pressão e ao bloqueio imperial. Mas a recente decisão do governo venezuelano de extraditar Alex Saab para os Estados Unidos é um daqueles momentos que obriga muitos de nós a reflectir cuidadosamente, a reconsiderar algumas posições e a falar com honestidade, como pessoas que desejam genuinamente ver o processo revolucionário sobreviver.
Antes de mais, quero deixar claro que não se trata de um ataque contra o povo venezuelano, nem contra a legitimidade histórica da luta anti-imperialista. As comunas, as organizações de base e a resistência popular continuam a ser o cerne daquilo que Hugo Chávez tentou construir. No entanto, a extradição de Alex Saab representa um grave erro político e estratégico que merece críticas.
A Contradição Que Não Pode Ser Ignorada
Durante anos, os movimentos de solidariedade internacional defenderam Saab como um prisioneiro político. Foi apresentado como um homem perseguido por Washington por ajudar a Venezuela a contornar as sanções e o bloqueio ilegais. Muitos de nós repetimos a narrativa oficial: que era um “herói da nação”, alguém que ajudou a manter o fluxo de alimentos e medicamentos em alturas em que as sanções ameaçavam o país com o colapso económico e o sofrimento humanitário.
Aceitámos também que alguns dos seus métodos — comprar barato no mercado negro, vender a preços mais elevados e contornar as sanções americanas — faziam parte das difíceis realidades da sobrevivência numa guerra económica.
Mas agora, esse mesmo homem foi entregue às autoridades americanas. Naturalmente, surge uma questão importante: porque é que um governo anti-imperialista daria voluntariamente ao império exactamente aquilo que ele desejava há anos?
A Testemunha Ideal Contra Maduro e Cilia Flores
Neste momento, se Alex Saab era verdadeiramente leal ou secretamente ligado aos serviços de informação americanos é quase secundário. A questão importante é que agora se torna a testemunha perfeita para os procuradores dos EUA.
A história já mostrou várias vezes — do Panamá à Jugoslávia e ao Iraque — que os Estados Unidos não precisam necessariamente da verdade para justificar intervenções ou perseguições políticas. Basta uma figura reconhecível, uma história convincente e um testemunho que pareça suficientemente credível para os media internacionais.
Agora, a Saab oferece exatamente essa oportunidade.
O Departamento de Justiça dos EUA já abriu novas investigações relacionadas com o presidente Nicolás Maduro e a Cilia Flores, utilizando informações ligadas ao caso de Saab. Não importa se essas informações são verdadeiras, manipuladas ou mesmo obtidas através de coação. Para o império e para os media corporativos, o que importa é a possibilidade de construir e repetir uma narrativa de corrupção contra a liderança venezuelana.
E isso cria um problema ainda maior para os movimentos de solidariedade internacional. Durante anos, muitos de nós defenderam a ideia de que a Revolução Bolivariana era mais do que a caricatura apresentada pelos media ocidentais. Argumentávamos que não se tratava simplesmente de uma rede corrupta controlada por elites ou famílias, mas de um processo social e político real, com apoio popular e objectivos revolucionários.
A extradição de Saab, infelizmente, torna este argumento muito mais difícil de defender internacionalmente.
Divisões Internas no Chavismo
De fora da Venezuela, o chavismo pareceu muitas vezes unido. Mas esta decisão está já a expor importantes tensões e divergências internas.
Vozes como as de Nicmer Evans, Mario Silva e outros chavistas críticos descreveram publicamente esta decisão como uma traição. Se as organizações de solidariedade ignorarem estas críticas vindas de dentro do próprio processo revolucionário, corremos o risco de defender não a revolução, mas apenas os erros de certos dirigentes.
O perigo não é apenas externo. É também interno.
O movimento comunal continua a ser, talvez, a única alternativa genuína tanto ao capitalismo neoliberal como ao capitalismo de Estado centralizado. Mas quando a base popular começa a perder a confiança moral na liderança, as comunas começam também a perder a orientação política e a esperança. Sem as comunas, não resta uma verdadeira Revolução Bolivariana para defender.
Por que razão isso aconteceu?
Isto leva-nos a uma questão incómoda, mas necessária: porque é que a liderança venezuelana decidiu, ou se sentiu obrigada, a extraditar Saab?
Fez parte das negociações com Washington em troca do alívio das sanções? Foi um erro de cálculo político? Ou foi uma tentativa de distanciar o governo de uma figura que se tornou politicamente prejudicial?
Seja qual for a explicação, o resultado político é o mesmo. O governo criou um vazio que os actores hostis já estão a utilizar para fortalecer a sua própria narrativa.
Do ponto de vista da solidariedade internacional, a nossa responsabilidade não é a lealdade cega a todas as decisões tomadas no caso Caracas.
A nossa responsabilidade é defender o poder popular, a organização comunitária e os princípios anti-imperialistas, mesmo quando isso exige criticar os erros estratégicos cometidos pela liderança.
Para onde vamos a partir daqui?
Apesar de tudo, a base social da revolução ainda existe. As comunas organizadas, as milícias populares, as organizações comunitárias e as estruturas mediáticas alternativas mantêm-se vivas.
Mas, para que haja uma recuperação da confiança política e da clareza revolucionária, é necessário um diálogo honesto.
Para o governo, a prioridade deve continuar a ser a sobrevivência nacional contra a agressão externa, mas sem fazer concessões que enfraqueçam a narrativa anti-imperialista e a legitimidade política do processo.
Para as organizações populares e de base, é necessário manter um diálogo autónomo com o povo e separar a defesa do projecto revolucionário comunitário da lealdade incondicional aos líderes individuais.
Como activistas da solidariedade internacional, devemos ser capazes de compreender a complexidade. Podemos opor-nos ao bloqueio dos EUA, rejeitar a hipocrisia imperial e, ainda assim, reconhecer que prestar um importante testemunho a Washington não é um acto de resistência. É uma forma de autossabotagem política.
A lealdade a um processo revolucionário nunca deve significar silêncio perante erros estratégicos.
A Revolução Bolivariana merece mais.
Em solidariedade, mas não em silêncio.
Por: Cláudio Ekdahl