Offline
MENU
A grande fantasia MAGA: a CIA vai desaparecer… claro, e a Coca-Cola vai se tornar um coletivo anticapitalista
Imaginar Trump a desmantelar a CIA é como acreditar que um imperador renunciaria voluntariamente às suas legiões porque um oráculo no YouTube ou no TikTok previu isso.
Publicado em 26/05/2026 17:00
Novidades
Imagem gerada por IA no ChatGPT

Tulsi Gabbard, portanto, deixou a inteligência americana. Oficialmente, a ex-Diretora de Inteligência Nacional (DNI) renunciou para apoiar o marido, que luta contra um câncer. Uma razão profundamente humana, até mesmo trágica, que nenhuma controvérsia política deveria ridicularizar. Mas em Washington, toda saída se torna um terreno fértil para especulações. E no universo MAGA-QAnon, a renúncia de Gabbard tornou-se imediatamente um "sinal". Mais um.

Porque, segundo os devotos do grande romance esotérico de Q, essa partida faz parte do famoso "plano": o desmantelamento gradual do "Estado profundo", com a CIA destinada ao ferro-velho como uma carcaça burocrática velha. Há oito anos, os profetas do Telegram vêm reciclando o mesmo cenário: prisões em massa iminentes, revelações explosivas, uma purga de agências federais. Há oito anos, "o plano" vem progredindo na velocidade de um caracol sob efeito de antidepressivos.

Para eles, cada evento é uma mensagem codificada. Uma renúncia? O plano. Silêncio? O plano. Um espirro em Langley? Provavelmente uma operação psicológica anunciando a iminente queda da CIA.

Só que existe um grande problema: a realidade existe.

E a realidade é um contraste bem mais duro com os cenários de Hollywood. Enquanto alguns imaginam Trump transformado num destruidor místico do "estado profundo", a CIA continua a operar a todo o vapor. A própria agência reitera que a sua missão é "coletar e analisar informações de inteligência estrangeira e conduzir operações secretas" a serviço dos interesses estratégicos americanos. Dificilmente o retrato de uma instituição à beira da dissolução. [CIA – Missão Oficial]

Melhor ainda: por que Donald Trump desmantelaria a ferramenta mais eficaz do poder americano?

A questão merece séria consideração, pois a lógica desmorona ao primeiro sinal de racionalidade. Nos últimos meses, as agências de inteligência americanas foram mobilizadas em questões importantes, desde o cenário iraniano até operações clandestinas contra regimes hostis aos interesses americanos. Mesmo quando Trump critica as burocracias federais, ele jamais abre mão dos meios para projetar o poder americano sem imediatamente mobilizar os fuzileiros navais.

E é aqui que a história se torna deliciosamente irónica.

Antes de sua saída, Gabbard prometeu desclassificar diversos arquivos sensíveis, sugerindo que algumas verdades permaneciam ocultas nos arquivos da inteligência americana. Interferência eleitoral, operações controversas, documentos confidenciais: ela declarou claramente a sua intenção de libertar certos arquivos antes de deixar o cargo. [Reuters – Tulsi Gabbard renuncia]

Mas, mais uma vez, as fantasias se desfazem.

Porque se a sua ambição é desmantelar a CIA, você não abandona o barco prometendo algumas revelações embaraçosas. Você corta orçamentos, neutraliza capacidades clandestinas, desmantela redes operacionais. No entanto, nada disso acontece. A estrutura permanece intacta. As operações continuam. As prioridades geopolíticas permanecem as mesmas.

A CIA não é uma anomalia dentro do sistema americano. Ela é o próprio sistema. Desde 1947, Washington jamais abdicou permanentemente das suas capacidades clandestinas: muda a sua doutrina, o seu vocabulário, às vezes a sua aparência moral, mas nunca a sua função. Subversão indireta, guerra psicológica, inteligência global, influência, sabotagem secreta: a CIA constitui o braço invisível da hegemonia americana. Por que Trump se privaria voluntariamente de tal influência? Não faz nenhum sentido estratégico.

Imaginar Trump a desmantelar a CIA é como acreditar que um imperador renunciaria voluntariamente às suas legiões porque um oráculo no YouTube ou no TikTok previu isso.



@BPartisans

Comentários