Quando em final de fevereiro, os céus do Médio Oriente se iluminaram com o brilho pouco poético dos mísseis, muitos comentadores ocidentais correram a decretar o fim do regime iraniano. Nos estúdios televisivos, nos jornais e nas intermináveis mesas-redondas dos especialistas avençados, o guião parecia já escrito: as infraestruturas seriam destruídas, os dirigentes eliminados, a capacidade de resposta anulada e o regime acabaria por ruir sob o peso das suas próprias contradições.
Do outro lado do Atlântico, o discurso era igualmente confiante. Falava-se de uma operação decisiva. De um golpe histórico. De uma demonstração de força destinada a alterar para sempre o equilíbrio regional. Ameaçaram mesmo que "destruiremos a raça". Para muitos, a questão já não era saber se o regime sobreviveria, mas apenas quantos dias demoraria a cair.
Acontece que a política internacional, tal como o futebol, raramente respeita os prognósticos feitos ao intervalo.
O regime que tantos davam por moribundo mostrou uma forte capacidade de resistência. Não apenas sobreviveu ao impacto inicial como conseguiu transformar a pressão externa num poderoso instrumento de mobilização interna. Onde alguns esperavam divisões, apareceram consensos. Onde se anunciavam revoltas, surgiram alinhamentos. Onde se previam fraturas, nasceu um renovado instinto de sobrevivência nacional. Viram assassinados os seus dirigentes, mas tinham, afinal, muito mais reservas prontas a jogar.
E depois existia o tabuleiro económico.
Enquanto se olhavam os misseis que viriam dos céus, o Irão observava os mapas marítimos. E poucos mapas são tão importantes para o mundo moderno como o do Estreito de Ormuz.
A simples capacidade de influenciar aquele corredor energético revelou-se suficiente para recordar ao planeta uma velha verdade: os motores da economia global continuam a depender de rotas que não se movem à velocidade das bombas e dos comunicados oficiais.
Os mercados redescobriram a ansiedade. Os preços da energia voltaram a ser assunto de preocupação quotidiana. Governos que discursavam sobre estabilidade passaram a explicar instabilidade. E milhões de consumidores perceberam que a geografia continua a ter mais peso do que a política dos seus dirigentes.
Pelo caminho, as nações do Médio Oriente viram alterar-se parte das suas dinâmicas económicas e turísticas. Novos fluxos, novas prioridades, novos equilíbrios.
Como acontece tantas vezes, a guerra transformou-se num acelerador de mudanças que, em tempos normais, demorariam anos a ocorrer. E todos parecem agora arrependidos de ter acoitado o seu aliado derrotado.
Entretanto, aquilo que parecia impossível aos olhos de muitos observadores começou a ganhar forma: o adversário que deveria estar encurralado surgia na mesa das negociações numa posição mais confortável do que aquela que possuía antes da crise. E foi aqui que o mito começou a desfazer-se. Porque o mito não era o da invulnerabilidade iraniana. O verdadeiro mito era outro: a ideia de que a força militar, por si só, pode substituir a compreensão das circunstâncias políticas, económicas e culturais de uma região inteira.
Ao longo dos séculos, muitos impérios confundiram capacidade de destruição com capacidade de transformação. Descobriram, tarde demais, que derrubar edifícios é frequentemente mais fácil do que alterar equilíbrios sociais, identidades nacionais ou interesses estratégicos.
Na metáfora que me inspirou, a partida parecia decidida ainda antes do apito inicial. Havia quem já estivesse a preparar os discursos da vitória quando o marcador começou a contar uma história diferente. O Irão já estava derrotado quando entrou em campo. Afinal ao intervalo ganha por 5 a 0 e o árbitro até é um inimigo. E porquê? Porque soube jogar com as cartas que possuía. Porque percebeu as regras reais do jogo. Porque transformou fragilidades em instrumentos de negociação. E porque entendeu algo que a política internacional nunca deixa de ensinar: vence menos quem tem mais força do que quem compreende melhor o terreno onde joga.
No fim de contas, permanece a velha lição. Os estrategas adoram desenhar mapas. Os generais adoram desenhar setas. Os políticos adoram desenhar futuros. Mas a realidade tem o irritante hábito de desenhar os seus próprios caminhos.
E é precisamente nesse momento que o mito do destruidor começa a desaparecer, dando lugar à figura bem mais humana - e muito mais frequente na História - o do executor que descobriu demasiado tarde que vencer uma batalha não é o mesmo que vencer o jogo.
A partida ainda não terminou e a vitória não poderá ainda ser cantada. Mas só com muito mau jogo na segunda parte o Irão será derrotado.
João Gomes in Facebook