RESUMO DO DIA
A reabertura parcial do Estreito de Ormuz e o avanço das negociações indiretas entre Estados Unidos e Irã reduziram o risco imediato de escalada militar, permitindo a retomada gradual do tráfego marítimo e aliviando pressões sobre energia, alimentos e fertilizantes.
O presidente Donald Trump mantém discurso otimista sobre o progresso das conversas, enquanto autoridades iranianas respondem com desconfiança e alertas de retaliação caso Washington e Israel não cumpram integralmente o acordo provisório.
O funeral do ex-líder supremo iraniano Ali Khamenei mobiliza mais de cem delegações internacionais e milhões de pessoas em Teerã, tornando-se um dos maiores eventos públicos da história moderna.
No campo econômico, o petróleo recua para níveis próximos ao pré-guerra, o ouro dispara com a fraqueza do mercado de trabalho nos Estados Unidos e o fluxo marítimo em Ormuz cresce, embora ainda distante da normalidade.
No campo militar e psicossocial, Gaza chega a mil dias de guerra em estado de devastação quase total, com colapso humanitário e tensões internas em Israel.
CAMPO POLÍTICO
Declarações do presidente Donald Trump mantêm tom otimista sobre o avanço das negociações com o Irã, afirmando que Teerã teria concordado com praticamente todas as exigências centrais de Washington. Trump insiste que os Estados Unidos não buscam mudança de regime, mas apenas impedir que o Irã obtenha armas nucleares, reforçando a narrativa de que um acordo está próximo e que a diplomacia estaria avançando de forma decisiva.
Em contraste direto com essa visão, o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irã, Esmaeil Baghaei, acusou os Estados Unidos de demonstrarem desprezo constante pela paz e pela segurança genuína da Ásia Ocidental. Baghaei afirmou que os países da região devem tirar lições claras da guerra conduzida por Washington e Israel contra Teerã, sinalizando que o governo iraniano não compartilha da leitura otimista apresentada por Trump e mantém postura de desconfiança profunda em relação às intenções norte-americanas.
Neste sentido, o presidente do Parlamento iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf, advertiu que, caso Estados Unidos e Israel não cumpram integralmente os compromissos assumidos para encerrar a guerra, o Irã retomará ações proporcionais. Ghalibaf declarou que Washington não possui capacidade militar para confrontar Teerã e classificou as ameaças israelenses como propaganda vazia, reforçando o contraste entre a narrativa otimista de Washington e a postura dura de Teerã.
Por outro lado, a guerra entre Estados Unidos e Israel contra o Irã continua repercutindo e adicionando incerteza à próxima cúpula da OTAN, que ocorrerá em Ancara. Apesar da impopularidade do conflito na Europa, a maioria dos aliados permitiu o uso de espaço aéreo e bases militares. A crise deteriorou relações pessoais entre Donald Trump e líderes europeus, criando risco de tensões durante o encontro.
O ministro das Finanças de Israel defendeu a criação de um cinturão de assentamentos judaicos como zona de segurança para Sderot, indicando intenção de consolidar controle permanente sobre partes da Faixa de Gaza. Enquanto isso, protestos internos em Israel pressionam o governo por falhas de segurança e pela condução da guerra.
Mas o grande fato político da semana é o funeral do ex-líder supremo Ali Khamenei, morto em um ataque aéreo conjunto dos Estados Unidos e de Israel no primeiro dia da guerra. A cerimônia deve reunir mais de vinte milhões de pessoas em Teerã e se tornar uma das maiores cerimônias públicas da história moderna. A programação inclui atos em Teerã, deslocamento do cortejo até Qom, recepção oficial em Najaf e procissões em Karbala, antes do retorno do corpo ao Irã para o sepultamento final em Mashhad. A ausência do atual líder supremo, Mojtaba Khamenei, por motivos de segurança após ameaças israelenses, reforça a tensão interna e o clima de vulnerabilidade.
Diversos países anunciaram o envio de chefes de Estado ou governo para os eventos programados, incluindo Paquistão, Tajiquistão, Armênia e Geórgia. Outras nações enviarão representantes de alto escalão, como Turquia, Índia, China, Rússia, Afeganistão e Bangladesh, transformando o funeral em um ponto de convergência diplomática em meio às negociações para encerrar a guerra.
CAMPO ECONÔMICO
O mercado de energia inicia julho com sinais claros de normalização após a reabertura parcial do Estreito de Ormuz. O petróleo recua para níveis próximos ao período pré-conflito, com o WTI em torno de 68,77 dólares e o Brent perto de 72,05 dólares, enquanto o gás natural sobe para 3,25 dólares e o gás europeu se estabiliza em torno de 44 euros. A recomposição gradual da oferta reduz o prêmio de risco geopolítico e começa a aliviar pressões sobre cadeias industriais e logísticas dependentes de hidrocarbonetos.
O tráfego marítimo no Estreito de Ormuz apresentou forte recuperação, refletindo maior confiança no cessar-fogo de sessenta dias entre Estados Unidos e Irã. Viagens rastreáveis subiram para oito por dia, após terem caído para apenas uma ou duas durante o conflito. Travessias totais, incluindo viagens sem sinalização, chegaram a duzentas e cinquenta e oito na última semana de junho, contra quarenta e uma no início da crise. Apesar da melhora, o fluxo permanece abaixo dos cento e trinta e cinco navios diários registrados antes da guerra.
A interrupção quase total de Ormuz provocou uma reorganização profunda das rotas marítimas no Golfo, beneficiando portos como Hamad, Jebel Ali, Khor Fakkan e Sohar, que absorveram tráfego desviado e evitaram colapso logístico. Essa redistribuição ajudou a mitigar impactos sobre alimentos, combustíveis e fertilizantes, reduzindo riscos de desabastecimento e estabilizando custos de transporte.
A economia dos Estados Unidos apresentou desaceleração no mercado de trabalho, com criação de apenas cinquenta e sete mil vagas em junho, bem abaixo das expectativas. O desemprego recuou para quatro vírgula dois por cento, mas o relatório veio acompanhado de revisões negativas para abril e maio. A fraqueza do mercado de trabalho reforça a percepção de que o Federal Reserve poderá adotar postura menos agressiva, contribuindo para a valorização do ouro, que se aproxima de quatro mil cento e oitenta dólares a onça.
Os preços de alimentos mostram desaceleração global, acompanhando o recuo do índice da FAO pelo segundo mês consecutivo. A normalização parcial das rotas marítimas do Golfo reduz custos logísticos e pressões sobre cereais, açúcar e fertilizantes. Minerais estratégicos como lítio, níquel e terras raras seguem voláteis, influenciados pela transição energética e pela incerteza geopolítica.
As bolsas globais operam em alta, com Europa renovando máximas históricas e Ásia mostrando recuperação no setor de serviços. No Brasil, o mercado aguarda dados de produção industrial e PMI de serviços.
CAMPO MILITAR
Os países do Golfo aceleram a diversificação de suas parcerias de segurança após a guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã, refletindo a percepção de vulnerabilidade estratégica. A Arábia Saudita amplia cooperação com o Paquistão e mantém relações próximas com Rússia e China, buscando reduzir dependência exclusiva de Washington e fortalecer autonomia regional.
Gaza chega ao marco de mil dias de guerra em estado de devastação quase total, com mais de noventa por cento do território destruído e dezenas de milhares de mortos. A expansão territorial israelense continua apesar do cessar-fogo formal, e apenas um terço da ajuda humanitária prometida entra no enclave. A reconstrução enfrenta impasses políticos profundos, com Israel exigindo desarmamento do Hamas e lideranças palestinas afirmando que a ocupação deve terminar antes que o tema das armas seja discutido.
CAMPO TECNOLÓGICO
A União Europeia venceu a disputa final contra o Google no caso antitruste relacionado ao Android, com confirmação da multa de quatro vírgula um bilhões de euros. A decisão reforça o escrutínio sobre grandes empresas de tecnologia e abre espaço para novas ações regulatórias em outros mercados.
CAMPO PSICOSSOCIAL
Gaza vive trauma coletivo profundo após mil dias de guerra, com destruição quase total do território, colapso humanitário e retrocesso de sete décadas em indicadores sociais. A população enfrenta fome extrema, falta de medicamentos e expectativa de vida reduzida a quarenta anos. A sensação de abandono e desamparo cresce diante da incapacidade de estruturas internacionais de garantir proteção ou reconstrução.
A presença de milhões de toneladas de escombros cria a percepção de que a recuperação é um horizonte distante. Moradores relatam paralisia institucional e emocional, ao mesmo tempo em que tentam manter esperança por meio de iniciativas locais de reconstrução.
Em Israel, protestos organizados por famílias enlutadas e ex-reféns revelam tensões internas profundas, com acusações de negligência e bloqueio de investigações sobre falhas de segurança. O clima de contestação contrasta com a narrativa oficial e evidencia que o conflito deixou feridas psicológicas em ambos os lados.
ANÁLISE GRU!
A 3ª Guerra do Golfo demonstra que o poder geopolítico contemporâneo se exerce tanto pelo controle de rotas estratégicas quanto pela capacidade de influenciar expectativas nos mercados globais. A reabertura parcial de Ormuz reduziu o risco imediato de choque energético, mas a volatilidade persiste e a confiança dos armadores ainda não retornou ao nível pré-guerra.
Para o Brasil, a normalização gradual das exportações de petróleo, gás e fertilizantes tende a aliviar custos agrícolas e industriais, enquanto a valorização do ouro e a volatilidade dos minerais estratégicos reforçam a necessidade de uma estratégia nacional para gerenciamento dos recursos críticos nacionais e fortalecimento de nossa capacidade de resiliência a conflitos globais em tempos de mudança hegemônica no sistema internacional.
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