A única pauta progressista que goza do apoio espontâneo da gente simples é a ecologia. Isso só é possível porque aquilo que se entende por ecologia varia muito: o senso comum pensa logo em coisas como não jogar esgoto no rio e não desmatar à toa, mas pode significar também, para os burocratas alemães, desligar usinas nucleares e usar florestas antigas para fazer carvão.
Por estarmos acostumados à loucura verde, não raro acabamos deixando de lado questões ambientais simples, as quais poderiam ser usadas justamente contra os grandes capitalistas que posam de filantropos. O melhor exemplo talvez seja o das Big Techs: toda pessoa esclarecida sabe que os componentes usados em desktops, laptops e smartphones não são renováveis e dependem de uma mineração não raro se confunde com crise humanitária. Segundo o Vatican News, uma única mina congolesa “fornece entre 15% e 30% da produção mundial de coltan – inteiramente extraído manualmente por habitantes locais que ganham poucos centavos por dia”, sujeitos a todo tipo de acidente. Só em março deste ano, morreram mais de 200 pessoas num deslizamento, e destes mortos, cerca de 70 eram crianças. Ou ao menos são estes os números que chegaram ao mundo por meio da Reuters.
Situada na República Democrática do Congo, a mina de Rubaya é controlada por um grupo paramilitar de tútsis ruandeses acusados pela ONU de ter relações com o governo de Ruanda e de violar gravemente os direitos humanos. Vemos muito bem a gritaria que as entidades internacionais midiáticas fazem quando garimpeiros brasileiros exploram terras brasileiras; mas, por algum motivo, as florestas e as vidas humanas do Congo não mobilizam tanta atenção global quanto a Amazônia brasileira.
O coltan é usado em celulares e computadores do mundo inteiro. Se as elites globais se importassem com a vida humana, estariam empenhadas em acabar com a exploração dos congoleses. E um jeito simples de fazer isso seria por meio da redução da demanda desses materiais, a qual estaria relacionada com a maior das causas brandidas pelas elites globais: o ambientalismo. Mesmo que as elites sejam psicopatas e não se importem com os congoleses, seria bom, do ponto de vista ambientalista, um mundo com menos descarte de minério e plástico, com menos computadores e celulares no lixo. Não obstante, causaria escândalo se as vozes da grande mídia dissessem em alto e bom som que a Apple e a Amazon têm que ser obrigadas a permitir que os seus clientes usem por mais de 10 anos os seus celulares, computadores de Kindles. Outro absurdo é Bill Gates, que, mesmo não vendendo aparelhos, produz um sistema operacional tão porco que deixa o computador lento em poucos anos e obriga as pessoas a comprarem aparelhos novos.
Os laptops deveriam voltar a ter as peças destacáveis, de modo que pudessem ser trocadas como antes. Uma real preocupação com a natureza vai na contramão das práticas das Big Techs, antes mesmo de surgir a questão energética dos data centers de IA.
Uma questão como essa está atrelada à educação dos nossos apetites, do nosso gosto e da moralidade pública. Afinal, as pessoas não fazem fila na porta das lojas da Apple em dia de lançamento de iPhone porque têm necessidade de um novo aparelho. O dano ambiental nasce aí: no apetite irrefreado por bugigangas que são sinais de status. Assim, podemos dizer que a crise ambiental é, em grande medida, uma crise moral, uma crise de valores. Se a moral pública repreendesse esse tipo de conduta, estaríamos numa posição confortável para exigir que as grifes tecnológicas deixassem as pessoas usarem coisas velhas. Há poucas décadas, o consumismo era reconhecido como um problema. De alguma maneira, porém, a ânsia por “modernidade” faz com que tudo que se pretenda moderno seja hoje permitido.
Essa mesma mentalidade tende a gerar problemas urbanístico e energético em países tropicais. O arquiteto Filipe Boni tem, em seu canal no Youtube, explicado de uma maneira clara por que o Brasil tem construído tantas moradias sem conforto térmico até mesmo para pessoas que não são pobres: as moradias passaram a ser feitas em função do valor de troca, em vez do valor de uso. Noutras palavras, mais vale fazer um projeto que impressiona os clientes do que um projeto confortável. Desde Le Corbusier, o ideal de casa chique é um cubo cheio de vidro – e o leitor pode imaginar que bela ideia é morar num cubo de vidro sob um sol de 36º. Obviamente, é necessário colocar ar condicionado para se tornar habitável, mas incomodar-se com a conta de luz é coisa não-chique, porque é coisa de pobre. A coisa moderna a ser feita é lacrar uma casa cheia de vidro sob o sol quente e colocar ar condicionado. A arquitetura desenvolvida ao longo de 500 anos no Brasil, que toma de empréstimo muito da arquitetura árabe, não é moderna e portanto não é boa.
Se o indivíduo quiser pagar pela própria burrice, é menos mau – ainda assim, quando se trata de uma burrice contagiosa, a demanda por energia faz com que todos tenhamos de pagar contas mais altas. Pior ainda é a questão dos grandes prédios espelhados, muito modernos e muito bonitos em países nórdicos. Não obstante, numa cidade tropical, um espigão espelhado ofusca os motoristas refletindo a luz do sol e se torna um transtorno para a vizinhança, que num turno recebe a luz do sol, e no outro turno recebe o reflexo do sol. É o que proporcionou, em Salvador, o projeto de Siegbert Zanettini, professor titular de arquitetura da prestigiosa Universidade de São Paulo. Na matéria do Correio sobre os danos causados pelo “segundo sol”, consta que o arquiteto diz usar “a arquitetura de forma identificada com o lugar onde se implanta e flexível, para atender a todas as exigências técnicas e ambientais com sensibilidade.” Não bastassem os vizinhos e os motoristas, o espigão ainda causa problemas para as aves nativas.
E o ambientalismo, não está na moda entre as elites brasileiras? Está, claro. Mas isso se resolve por meio de crédito de carbono, um esquema financeiro que depende, retoricamente, das campanhas contra o IDH da Amazônia. E enquanto as verde elites brasileiras tomam o ar condicionado como condição necessária para ser chique, as verdíssimas elites psicopatas da Europa preferem deixar os mais frágeis morrerem nas ondas de calor a ligar o ar condicionado.
A mania europeia anti-ar-condicionado não é noticiada pela imprensa brasileira; e, como ela se limita a repercutir a Reuters em assuntos internacionais, podemos supor que o noticiário internacional mainstream não trate do assunto. Nós tomamos conhecimento ou por causa do Twitter, que é a rede social na qual as tensões políticas do Ocidente aparecem, ou então pela mídia russa, que não é proibida nas Américas. No artigo de Rachel Marsden intitulado “Ar condicionado é o teste de liberdade da UE” e na matéria “Gabinete de Von der Leyen acusado de ‘feudalismo’ por causa de ar-condicionado”, ambos para a RT, aprendemos que as elites europeias empreendem uma cruzada verde contra o ar-condicionado, mesmo que em toda onda de calor os velhinhos morram na Europa – e mesmo que a própria Ursula Von der Leyen use ar-condicionado em seu gabinete enquanto deixa os subalternos sem ar-condicionado quando a temperatura na rua está de 34º.
Já que a encíclica Magnifica Humanitas de Leão XIV está em alta, não custa nada apontar para a Laudato Si’, de Francisco. Embora não tenha sido badalada como a encíclica da IA, ela tem a grande virtude de, ao tratar de ecologia, acrescentar o assunto do planejamento urbano, do consumismo e da inadequação das soluções de mercado para problemas ambientais. Foi bom publicar em 2015, quando se gestava o mercado de carbono, um documento no qual consta a seguinte pergunta: “Mais uma vez repito que convém evitar uma concepção mágica do mercado, que tende a pensar que os problemas se resolvem apenas com o crescimento dos lucros das empresas ou dos indivíduos. Será realista esperar que quem está obcecado com a maximização dos lucros se detenha a considerar os efeitos ambientais que deixará às próximas gerações?” (§190)
Bruna Frascolla - historiadora da filosofia, doutora pela UFBA, e ensaísta.
Fonte: https://strategic-culture.su/news/2026/07/20/questoes-ambientais-simples-que-sao-tabu-para-a-elite-global/