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Geopolítica e Coerência: O Labirinto Ideológico de uma “dita Esquerda” entre a Palestina e a Ucrânia
É factual que a génese da atual crise na Ucrânia não se circunscreve aos acontecimentos de 2022, remontando a 2014.
Publicado em 28/08/2026 09:42
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Observa-se uma contradição conceptual profunda na forma como vastos setores da opinião pública, incluindo correntes ditas de esquerda, analisam e reagem a dois dos conflitos mais estruturantes do século XXI: a questão palestiniana e a guerra na Ucrânia.

Torna-se imperativo questionar a coerência de manifestar uma sensibilidade analítica rigorosa perante a opressão histórica do povo palestiniano e, simultaneamente, adotar uma postura de apoio acrítico e incondicional ao governo de Kiev.

Esta assimetria valorativa exige um exame retrospetivo desprovido de dogmatismos ideológicos e firmemente ancorado no Direito Internacional.

É factual que a génese da atual crise na Ucrânia não se circunscreve aos acontecimentos de 2022, remontando a 2014, ao período subsequente ao “EuroMaidan” e à consequente operação militar na região do Donbass.

Do ponto de vista metodológico, as dinâmicas operacionais mobilizadas pelas forças armadas ucranianas - coadjuvadas por bandos paramilitares de pendor ultranacionalista integrados na estrutura do Estado - contra as populações de matriz russófona no leste do país apresentam paralelismos estruturais com as violações sistemáticas do Direito Internacional Humanitário aplicadas pelo Estado de Israel na Cisjordânia e na Faixa de Gaza.

Entre estas práticas, destacam-se o bombardeamento sistemático de zonas urbanas civis, sob o pretexto de "combater o terrorismo", em flagrante violação dos princípios de distinção e proporcionalidade consagrados nas Convenções de Genebra, a asfixia económica através do corte de recursos básicos e essenciais (como água e pensões) às populações consideradas "rebeldes" e a erosão dos direitos linguísticos e culturais de minorias étnicas, à margem do Pacto Internacional sobre os Direitos Civis e Políticos.

Perante este quadro, impõe-se a interrogação de como a mesma matriz teórica que condena legitimamente o regime israelita pôde secundarizar ou omitir a violência estatal exercida por Kiev no seu flanco oriental ao longo dos últimos 12 anos.

Esta dissonância cognitiva transcende o plano teórico, materializando-se em alinhamentos políticos e diplomáticos concretos.

O (ainda) atual presidente ucraniano, tem reiterado uma explícita admiração pelo modelo do Estado de Israel, tendo postulado publicamente o objetivo de transmutar a Ucrânia numa "grande Israel", i.e., um Estado fortemente militarizado e estruturado em torno da segurança securitária estrita.

Ademais, a diplomacia de Kiev tem atuado como um vetor de validação internacional das campanhas militares israelitas, obstruindo resoluções da Assembleia Geral da ONU e contrariando pareceres de tribunais internacionais.

Consequentemente, ao subscrever de forma irrestrita a liderança ucraniana, a esquerda que apoia Zelensky está, em aparente contradição, a validar a engrenagem que esmaga o povo palestiniano, validando os pressupostos políticos que perpetuam a negação do direito inalienável da Palestina à sua autodeterminação, conforme preconizado na Resolução 1514 da ONU.

A defesa do princípio da soberania e o repúdio pelo expansionismo do nacionalismo étnico supremacista exigem uma aplicação universal e imune a conveniências conjunturais.

A solidariedade internacionalista descaracteriza-se quando assenta em critérios geográficos seletivos ou se esconde nas narrativas hegemónicas ocidentais, o que culmina numa evidente falta de perspetiva analítica.

Se as premissas de opressão, os mecanismos de punição coletiva e o desrespeito pelas normas peremptórias do jus cogens do Direito Internacional são funcionalmente análogos, o rigor ético e a consistência política impõem uma condenação doutrinária idêntica em ambos os cenários.


Alexandre Quintela in Facebook

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