Há uma espécie particularmente curiosa de moralista internacional que merece ser estudada pelos historiadores do absurdo: o moralista ocidental que passa o dia a falar de paz enquanto financia, arma e prolonga a guerra.
Condena a violência — desde que praticada pelo inimigo. Defende o direito internacional — desde que não contrarie os seus interesses. Exalta a soberania dos povos — desde que votem correctamente. E proclama desejar a paz enquanto envia mais armas para garantir que ela continue a não chegar.
É neste teatro de hipocrisia que surge Volodymyr Zelensky, cada vez mais empenhado na velha técnica da fuga para a frente: quando a estratégia falha, aumenta-se a aposta; quando a aposta falha, aumenta-se o risco; e quando o risco ameaça transformar-se em catástrofe, chama-se-lhe «escalada necessária».
Agora, a questão chega à aviação civil.
Perante os riscos decorrentes da intensificação dos ataques ucranianos com drones, a pergunta já não deveria ser dirigida apenas a Kiev, mas também aos governos ocidentais que continuam a fornecer armas, dinheiro, inteligência e cobertura política, a um governo nazifascista irresponsável.
Até onde estão dispostos a ir?
Até ao último ucraniano? Até ao último míssil? Até ao último drone? Ou até ao dia em que um avião civil seja atingido e a Europa descubra, com a habitual surpresa de quem nunca lê as instruções antes de carregar no botão, que uma guerra não é um videojogo?
A propaganda, entretanto, faz milagres.
Ontem, os ataques eram «defensivos». Hoje, são «operações de longo alcance». Amanhã serão, certamente, «instrumentos de estabilização estratégica». Uma bomba transforma-se em «assistência de segurança», um ataque em «dissuasão» e uma guerra por procuração numa cruzada pela democracia.
O problema é que a realidade tem o péssimo hábito de não respeitar a propaganda.
Durante anos disseram-nos que eram necessárias armas para alcançar a paz. Enviaram-se armas. A paz não veio. Então vieram mais armas, mais financiamento, treino, inteligência e sistemas de maior alcance.
E a paz, essa ingrata, continua sem compreender a excelência da estratégia ocidental.
Talvez porque tenha o mau hábito de exigir diplomacia — precisamente aquilo que os grandes estrategas da guerra parecem confundir com fraqueza.
Há ainda uma questão mais incómoda.
O Ocidente passou décadas a ensinar que democracia significava rejeitar o extremismo, combater o fascismo, respeitar a pluralidade política e proteger as instituições. Excelentes princípios — até ao momento em que encontram a geopolítica.
Então, subitamente, tudo se relativiza: movimentos nacionalistas radicais tornam-se «contexto histórico»; símbolos de extrema-direita, «questões marginais»; milícias controversas, «unidades integradas»; nacionalismo exacerbado, «patriotismo».
E quem levanta perguntas incómodas recebe o diagnóstico mais conveniente do nosso tempo:
«Propaganda russa.»
É uma expressão extraordinariamente útil. Dispensa argumentos. Não é preciso responder à pergunta; basta desqualificar quem a formula.
Não se trata de afirmar que «todos os ucranianos são nazis», o que seria tão intelectualmente indigente como responsabilizar todos os russos pela política do Kremlin. A questão é outra:
Porque razão determinados sectores radicais são tolerados ou instrumentalizados quando servem os objectivos estratégicos do Ocidente?
E há uma regra de ouro nesta nova moral internacional: a mesma acção muda de natureza moral consoante a bandeira que a pratica.
Se Moscovo ataca uma infra-estrutura, é terrorismo. Se Kiev a ataca, é resistência.
Se a Rússia ameaça a aviação, é barbárie. Se a Ucrânia cria riscos para a aviação, é estratégia.
Se Moscovo utiliza drones, é escalada. Se Kiev os utiliza, é inovação tecnológica.
A moral ocidental adquiriu a flexibilidade de uma contorcionista.
E aqui chegamos ao essencial: não existe guerra por procuração sem procuradores.
Quem fornece armas, dinheiro, treino, inteligência e cobertura política não pode depois apresentar-se como espectador inocente dos resultados.
É uma velha regra da vida: quem fornece gasolina a alguém que brinca com fósforos não pode, depois do incêndio, apresentar-se como bombeiro.
Mas é exactamente isso que parece estar a acontecer.
Os governos ocidentais entregam as armas. Kiev utiliza-as. Moscovo responde. O Ocidente condena a resposta e envia mais armas. Kiev intensifica os ataques. Moscovo responde novamente. E os mesmos governos concluem, com a solenidade de um comité de especialistas, que «a Rússia está a escalar».
Uma lógica tão perfeita que só falta alguém atribuir-lhe um Prémio Nobel.
É legítimo perguntar quem beneficia desta guerra interminável.
A Europa dificilmente parece ser a grande vencedora: perde energia barata, competitividade industrial, aumenta a despesa militar e aproxima-se perigosamente de uma confrontação directa com uma potência nuclear.
A Ucrânia paga com território, população, destruição e vidas. A Rússia paga com vidas, recursos e isolamento. E, entretanto, a indústria militar ocidental recebe encomendas.
Que extraordinária coincidência.
O velho complexo militar-industrial de que Eisenhower advertiu os americanos em 1961 parece ter encontrado uma nova embalagem. Agora chama-se «segurança europeia».
O Ocidente não está a defender a paz.
É tempo de abandonar a ficção.
Quem pretende realmente a paz não pode repetir a palavra «paz» enquanto aumenta os meios materiais da guerra. Quem pretende negociar não pode tratar qualquer negociação como capitulação. E quem pretende evitar uma guerra directa entre a NATO e a Rússia não pode aproximar-se dela passo a passo, arma a arma, autorização a autorização.
A democracia não é uma camisola: não se veste quando convém e despe-se quando incomoda.
O direito internacional também não é um restaurante à carta. Não se escolhem os artigos que interessam e ignoram-se os restantes. E os direitos humanos não podem depender da nacionalidade da vítima.
A pergunta é simples:
Querem realmente uma guerra sem fim com uma potência nuclear?
Querem continuar a pagar, a enviar armas e a assistir à destruição da Ucrânia enquanto os seus governos repetem que estão «cada vez mais próximos da vitória»?
E, sobretudo, querem correr o risco de transformar uma guerra entre Rússia e Ucrânia numa guerra directa entre a Rússia e a NATO?
Porque esse é o verdadeiro perigo.
Uma coisa é solidariedade. Outra é temeridade.
Uma coisa é apoiar um país. Outra é tornar-se progressivamente parte activa da guerra.
Uma coisa é defender a Ucrânia. Outra é defender uma estratégia que pode acabar por destruir precisamente aquilo que se afirma querer salvar.
O Ocidente precisa, finalmente, de decidir o que quer ser:
Mediador ou beligerante;
Construtor de paz ou fornecedor de armas;
Defensor da democracia ou gestor de uma guerra permanente.
Não pode continuar a ser tudo ao mesmo tempo.
Porque chegará o momento em que a propaganda deixará de esconder a realidade. E, nesse dia, ninguém poderá dizer que não sabia.
Sabiam Washington, Londres, Bruxelas e as restantes capitais europeias. Sabiam que cada nova arma aumentava o risco e que cada nova escalada aproximava as partes de um confronto directo.
E, ainda assim, continuaram.
Por isso, quando a História perguntar quem alimentou esta guerra, talvez não baste apontar o dedo para Moscovo.
Será preciso olhar também para aqueles que, sentados confortavelmente longe das trincheiras, forneceram o combustível, entregaram os fósforos e tiveram depois a extraordinária ingenuidade — ou a extraordinária hipocrisia — de se declararem surpreendidos com o incêndio.
A paz não precisa de mais armas.
Precisa de homens de Estado.
E talvez seja precisamente isso que esteja em falta.
Porque quem transforma a guerra numa política acaba, mais cedo ou mais tarde, por descobrir que a guerra também transforma a política — e raramente para melhor.
Adriano Pires, Coronel do Exército de Cabo Verde na reforma