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Pavlo Sadokha – Não caiu de uma janela, mas partiu para outro planeta
Publicado em 15/09/2026 09:30
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Há pessoas cuja morte nos leva ao silêncio. Outras obrigam-nos a recordar aquilo que disseram, fizeram e representaram. Pavlo Sadokha pertence, para mim, à segunda categoria.

Não caiu de uma janela. Não caiu de uma varanda. Não foi necessário nenhum daqueles acidentes providenciais que tantas vezes alimentam a ironia política contemporânea. Simplesmente partiu mais cedo para outro planeta — ou, para quem acredita, foi antecipadamente prestar contas perante uma instância onde não existem televisões, assessores de imprensa, bandeiras convenientes nem comunicados cuidadosamente redigidos.

E eu não vou agora participar naquele extraordinário ritual segundo o qual a morte transforma automaticamente qualquer pessoa numa personalidade imaculada. Morrer não reescreve uma biografia.

Em 2022 denunciei aquilo que considero ter sido uma das páginas mais vergonhosas desta radicalização em Portugal: as declarações que atribuo a Sadokha relativamente à escola russa de Albufeira, envolvendo a ideia de a incendiar com professores e crianças no seu interior. Foram dias de uma tensão tal que a GNR chegou a prestar segurança à escola. Se existem declarações desta gravidade registadas, então devem permanecer registadas. Se alguém pretender contestá-las, que o faça documentalmente. A História não se escreve apagando aquilo que incomoda.

E a palavra Odessa deveria bastar para tornar qualquer brincadeira com fogo especialmente sinistra.

Porque em 2 de Maio de 2014 pessoas morreram queimadas na Casa dos Sindicatos de Odessa. Famílias perderam familiares. Houve violência, fogo e dezenas de mortos. Poderemos discutir durante décadas responsabilidades políticas, provocações, sequências dos acontecimentos e interpretações ideológicas. Uma coisa não pode ser discutida: os mortos existiram.

É também neste contexto que enquadro o nacionalismo radical ucraniano que sempre critiquei e as relações políticas de Sadokha com sectores nacionalistas e ultranacionalistas ucranianos. A partir de 2022, porém, bastava colocar a bandeira certa ao peito para quase tudo passar a ser apresentado no Ocidente como democracia, liberdade e resistência.

E chegámos ao extraordinário paradoxo europeu: passámos anos a dizer que combatíamos o extremismo enquanto aprendíamos a distinguir cuidadosamente entre extremistas maus e extremistas geopoliticamente convenientes.

Também atribuo a Sadokha participação numa recente manifestação em Lisboa onde foi entoada publicamente a expressão «Moskalyaku na giliaku» — expressão que, no contexto em que é utilizada, é associada à ideia de pôr russos na forca. Se tal expressão foi efectivamente gritada nas ruas portuguesas, gostaria de saber onde ficaram naquele momento os nossos profissionais da indignação.

Onde estavam os comentadores?

Onde estavam os defensores do combate ao discurso de ódio?

Onde estavam aqueles que conseguem detectar fascismo a quilómetros de distância — excepto quando ele fala a língua geopoliticamente correcta?

Em Portugal parece por vezes existir um curioso Código Penal moral: depende menos daquilo que se diz do que contra quem se diz.

Eu não penso assim.

Não considero aceitável desejar a morte de russos por serem russos, tal como não considero aceitável desejar a morte de ucranianos por serem ucranianos. Uma sociedade civilizada não pode seleccionar quais os povos que podem ser colectivamente odiados mediante autorização televisiva.

Agora Pavlo Sadokha morreu.

Não vou fingir uma admiração que nunca tive. Também não preciso de celebrar a morte de ninguém para recordar aquilo que penso sobre o seu percurso. Há uma diferença enorme entre as duas coisas.

Mas existe uma ironia antiga, anterior à NATO, à Rússia, à Ucrânia e provavelmente à própria política: quem passa pela vida desejando o mal aos outros deveria pelo menos recordar que também é mortal.

Sadokha não caiu de uma janela.

Não caiu de uma varanda.

Desta vez não houve sequer oportunidade para construir uma dessas histórias cinematográficas que tanto entretêm a propaganda europeia quando o morto está do outro lado da barricada.

A vida simplesmente apresentou-lhe a factura final.

E talvez, onde quer que esteja, tenha agora oportunidade de conversar com Deus sobre nacionalidades, russos, ucranianos, ódio, guerra e aquela incómoda questão que os homens descobrem sempre demasiado tarde:

quando finalmente estamos todos debaixo da mesma terra, de que servia afinal odiarmo-nos tanto em cima dela?

 

Autor: João Ferreira in Facebook

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