A recente decisão do Parlamento do Reino Hachemita da Jordânia de remover o nome do Estado de Israel dos registos oficiais das suas deliberações foi apresentada como uma “bomba diplomática”. Além do impacto simbólico, o acto revela uma profunda tensão entre a voz da população árabe e os compromissos políticos assumidos pelos Estados.
A proposta, anunciada pelo deputado Hael Ayyash, foi acompanhada de palavras contundentes que refletem um sentimento generalizado em amplos sectores da sociedade jordana: a percepção de que Israel não é um vizinho normal, mas uma potência ocupante cuja política na Palestina continua a gerar indignação regional. Não se trata simplesmente de remover um termo administrativo; é uma declaração política carregada de significado identitário.
No entanto, esse gesto parlamentar ocorre num contexto particularmente sensível. A Jordânia assinou o Tratado de Paz de Wadi Araba com Israel em 1994, estabelecendo relações diplomáticas formais e compromissos bilaterais em segurança e cooperação. Desde então, o Estado jordano tem mantido uma política externa que busca equilibrar o seu apoio histórico à causa palestina com a estabilidade regional e suas alianças estratégicas.
Dentro desse mesmo contexto, é impossível ignorar que a Jordânia atuou como um fator de dissuasão regional em momentos críticos. Recentemente, o reino bloqueou mísseis que chegassem a Israel, priorizando a segurança aérea e o controle soberano de seu espaço aéreo. Para alguns, essa decisão foi vista como uma proteção indireta ao Estado israelita; para outros, foi uma reafirmação da doutrina jordana de impedir que o seu território se torne um campo de batalha para conflitos externos.
Essa dualidade expõe a complexa realidade geopolítica da Jordânia:
Por um lado, uma sociedade profundamente comprometida com o povo palestino.
Por outro, um Estado que precisa administrar tratados, pressões internacionais e delicados equilíbrios estratégicos.
A mensagem do Parlamento reflete o clima político regional e a frustração acumulada com a contínua ocupação e violência. Mas também levanta questões legítimas: até que ponto o simbolismo legislativo pode ir sem alterar os compromissos internacionais existentes? Estaremos testemunhando um gesto de pressão política ou o início de uma redefinição mais ampla das relações bilaterais?
Para a diáspora palestina e para os povos da América Latina que acompanham de perto esses acontecimentos, a lição é clara: a região vive um momento de reconfiguração. Gestos simbólicos são importantes, mas a verdadeira transformação dependerá de decisões estruturais, do respeito ao direito internacional e da construção de uma paz baseada na justiça, e não apenas em tratados.
A União Palestina da América Latina (UPAL) reitera que a estabilidade regional não pode ser sustentada pelo silêncio imposto ou pela negação dos direitos nacionais do povo palestino. A dignidade dos povos e a coesão dos Estados continuam sendo o teste fundamental de qualquer projeto de paz duradoura.
União Palestina da América Latina – UPAL
26 de fevereiro de 2026