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A Moral Seletiva do Ocidente e o Refrão da Dupla Verdade
A teoria da dupla verdade funciona assim: os erros próprios são “erros circunstanciais”; os erros do adversário são “provas de barbárie civilizacional”.
Publicado em 26/02/2026 18:00
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Outra vez o mesmo disco. O velho refrão que ecoa, em tempo de Carnaval, nos corredores do poder e nas redações alinhadas: “Faça o que eu digo, não o que eu faço.” É a consagração da teoria da dupla verdade — uma para consumo externo, outra para justificar as próprias incoerências.

 

Na ausência de um argumento sólido e equilibrado sobre a Rússia, parte significativa da imprensa europeia decidiu ressuscitar a figura de Alexei Navalny como símbolo máximo da luta pela liberdade. A narrativa é previsível: Navalny elevado à condição de mártir da democracia, enquanto se silenciam contradições, contextos internos e complexidades políticas da própria Rússia.

 

Não se trata de negar o seu papel como opositor do Kremlin, nem de ignorar os contornos dramáticos que envolveram a sua trajetória. Trata-se, sim, de questionar o uso instrumental da sua imagem. Navalny foi, para muitos no Ocidente, o rosto conveniente de uma alternativa política russa.

 

Contudo, dentro da própria Rússia, a sua figura estava longe de ser consensual. Era contestado, criticado, visto com desconfiança por diferentes setores da sociedade — inclusive por posições passadas que raramente são lembradas nas homenagens póstumas feitas fora do seu país.

 

Quando um ator político é mais celebrado no exterior do que no próprio território onde atua, é legítimo perguntar: a quem serve essa canonização? À democracia russa ou à estratégia geopolítica de quem a promove?

 

Além disso, impõe-se outra reflexão incómoda: quando foi que o Ocidente, frequentemente acusado de russofobia, reconheceu publicamente alguma verdade que pudesse favorecer a Rússia no atual conflito geopolítico? Em que momento se admitiu que a expansão da OTAN, as intervenções seletivas e a lógica de cerco também compõem o pano de fundo da crise?

 

A coerência moral exige memória. E a memória não pode ser seletiva.

 

Basta percorrer a história europeia — das guerras religiosas que devastaram o continente às aventuras coloniais que submeteram povos inteiros, das ditaduras apoiadas por conveniência estratégica às intervenções militares recentes justificadas sob o manto da “defesa da democracia” — para perceber que nenhuma civilização detém o monopólio da virtude. Nenhum bloco político pode reivindicar pureza moral absoluta.

O problema não está em criticar a Rússia. Toda potência deve ser criticada. O problema está em fazê-lo como se o crítico fosse isento de pecado histórico, como se não carregasse consigo o peso de decisões que também custaram vidas, soberanias e futuros.

 

A teoria da dupla verdade funciona assim: os erros próprios são “erros circunstanciais”; os erros do adversário são “provas de barbárie civilizacional”. Os excessos de uns são “desvios”; os de outros, “essência autoritária”. A seletividade transforma-se em método.

 

Se a defesa dos direitos humanos for genuína, ela deve ser universal. Se a soberania for princípio, deve valer para todos. Se a liberdade de expressão for sagrada, não pode depender da geografia nem da conveniência estratégica.

Caso contrário, continuaremos a ouvir o mesmo disco riscado — alto, moralista e acusatório — enquanto as próprias contradições permanecem convenientemente fora do enquadramento.

 

Assim sendo, haja paciência. Porque mais do que indignação seletiva, o mundo precisa de coerência.

 

 

Coronel Adriano Pires in Facebook

 

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