Diego Herchhoren
A revista Marx XXI, publicação promovida pelo chamado “Movimento Socialista”, acaba de lançar a sua quinta edição, que, como novidade, inclui um capítulo dedicado à “revolução mundial”. Este capítulo resume e promove as teses anticomunistas históricas compiladas pelo grupo PRISA, pelo New York Times e por qualquer outra publicação promovida pelo capital ocidental.
O artigo, intitulado “Quebrar o Gelo: As Trajetórias da Revolução Mundial (1914-1949)” e assinado sob o pseudónimo Volodia, revive a narrativa anti-estalinista e baseia-a em dados publicados periodicamente por várias agências noticiosas ligadas aos Estados Unidos: desde a suposta colaboração da URSS com a Alemanha nazi até às purgas de Estaline. Nada de novo sob o sol.
Embora o Movimento Socialista se tenha mantido até então ausente destes debates, a publicação deste documento é inegavelmente significativa, pois promove entre os seus membros a antiga ideia partilhada tanto pelo trotskismo como pelo PCE (Partido Comunista de Espanha), partido do qual provêm muitos dos seus quadros. De forma franca e aberta, o Movimento Socialista apresenta, com este texto, um paradoxo que merece análise dialética.
Por um lado, apresenta-se como uma obra de autocrítica marxista, um exercício necessário para a compreensão das causas da "degeneração" do projecto revolucionário. Por outro lado, as suas teses centrais — a equiparação do estalinismo ao fascismo, a apresentação do Pacto Molotov-Ribbentrop como "colaboração" ideológica, a redução de todo o período estalinista a mera "degeneração burocrática" — coincidem ponto por ponto com a narrativa que tem sido sistematicamente promovida pelas agências de informação ocidentais, pelos historiadores do anticomunismo liberal e pela imprensa burguesa.
Esta publicação oferece uma oportunidade bem-vinda para redescobrir uma obra antiga, expurgada das bibliotecas comunistas após a ascensão de Nikita Khrushchev ao poder na URSS em 1956: "A Grande Conspiração Contra a Rússia", da autoria dos jornalistas norte-americanos Michael Sayers e Albert Kahn.
Sayers e Kahn não eram burocratas soviéticos nem ideólogos do partido. Eram jornalistas de investigação americanos que ganharam reputação ao expor operações de espionagem e sabotagem nazi-fascistas nos Estados Unidos durante a guerra. Kahn, como editor do boletim informativo The Hour, dedicou-se a desmascarar as redes da quinta coluna do Eixo em solo americano, e as suas investigações foram utilizadas pelo Departamento de Guerra dos EUA, pelo Departamento de Justiça e pelo Gabinete de Informação de Guerra. O livro apresenta um argumento semelhante, mas para a União Soviética, assediada por ser o primeiro Estado operário da história da humanidade, o que levou a que ambos os jornalistas fossem incluídos na lista negra da Comissão McCarthy e do seu Comité de Actividades Anticomunistas da Câmara.
Sayers e Kahn não eram burocratas soviéticos nem ideólogos do partido. A Importância de "A Grande Conspiração"
O livro foi um best-seller internacional (250 mil exemplares só nos Estados Unidos) e chegou a ser utilizado como documento de defesa nos Julgamentos de Tóquio. Não se tratava de um panfleto; era uma obra de jornalismo de investigação que fornecia provas de que, entre outras coisas, a campanha de desinformação agora reproduzida pelo Movimento Socialista fazia parte de um plano muito ambicioso liderado pelos Estados Unidos e pela Grã-Bretanha.
A importância deste documento de Sayers e Kahn reside no facto de desmontar, com provas documentadas, as falácias reproduzidas por Volodia. Volodia, por exemplo, sustenta que a teoria do "socialismo num só país", formulada por Estaline em 1924-1925, foi a pedra basilar da degeneração burocrática. Ao abandonar a perspectiva da revolução mundial, a URSS terá supostamente renunciado à sua essência internacionalista e tornou-se um Estado nacionalista que deu prioridade à sua sobrevivência em detrimento da emancipação proletária.
Sayers e Kahn desmontam esta interpretação. O “socialismo num só país” não foi uma escolha ideológica, mas uma resposta defensiva a uma realidade brutal: desde a sua concepção, a Rússia Soviética foi alvo de intervenções militares e diplomáticas sistemáticas. Os autores documentam como, em 1918, catorze potências — incluindo os Estados Unidos, a Grã-Bretanha, a França e o Japão — invadiram o território russo sem uma declaração de guerra, financiaram exércitos “brancos” e conspiraram para desmembrar o novo Estado. O Tratado de Brest-Litovsk, que Volodia apresenta como uma “capitulação”, era a única saída possível, dadas as evidências de que os Aliados não viriam em auxílio da revolução. Neste contexto de cerco constante, construir o socialismo num só país não foi uma traição ao internacionalismo, mas a condição para a sobrevivência da revolução.
A teoria de Estaline não foi uma invenção arbitrária, mas uma observação dos factos: a revolução mundial não aconteceu e...
A URSS, isolada e cercada, precisava de se fortalecer para evitar ser esmagada. Longe de ser uma "capitulação", foi o alicerce sobre o qual se construiu a defesa do único Estado operário do mundo.
Os Julgamentos de Moscovo
Outro exemplo é a descrição que Volodia faz da URSS sob a liderança de Estaline, definindo-a como uma burocracia que se consolidou progressivamente, culminando no Grande Terror (ecoando o termo utilizado para a política de guilhotina da Revolução Francesa) de 1936-1938, uma purga arbitrária com o objectivo de eliminar a velha guarda bolchevique e consolidar o poder pessoal de Estaline.
Sayers e Kahn analisam os Julgamentos de Moscovo com base em fontes primárias — algo que raramente acontece. Na realidade, os chamados "expurgos" foram uma operação de contra-espionagem necessária para desmantelar uma vasta rede de conspiradores que, como documentam com testemunhos judiciais, eram aliados dos serviços secretos alemães e japoneses.
O livro dedica capítulos inteiros a detalhar a forma como Zinoviev, Kamenev, Bukharin, Pyatakov, Radek e Tukhachevsky foram expostos como agentes de uma quinta coluna que planeava derrubar o governo soviético com ajuda estrangeira. Não se tratou de um "expurgo" arbitrário, mas de um processo judicial em que muitos dos acusados confessaram os seus crimes.
As provas apresentadas por Sayers e Kahn são esmagadoras. O próprio chefe da OGPU/NKVD, Henry Yagoda, era um conspirador que tinha assassinado o seu antecessor, Menzhinsky, e figuras como Maxim Gorky para facilitar o golpe. O seu envolvimento demonstra que a conspiração penetrara no próprio âmago do aparelho de segurança do Estado.
Outro caso é o do Marechal Tukhachevsky, em que ele e outros generais do Exército Vermelho não foram vítimas da paranóia de Estaline, mas foram executados por conspirarem com o Alto Comando Alemão para orquestrar um golpe e abrir caminho à Wehrmacht em caso de invasão. O livro documenta a forma como Tukhachevsky, durante a sua viagem a Londres em 1936, elogiou publicamente a Alemanha nazi e expressou o seu desejo de uma aliança com Hitler.
A magnitude da purga não reflete a escala da conspiração: uma rede que abrangia o Exército, a indústria, a diplomacia e o partido. Sayers e Kahn não "inventam" esta ameaça; extraem-na de depoimentos judiciais e documentos diplomáticos da época. No entanto, textos como o de Volodia reduzem a questão a uma paranóia pessoal quase semelhante ao medo que Lex Luthor tinha do Super-Homem.
O Papel de Trotsky
Volodia apresenta Trotsky como um revolucionário derrotado numa luta pelo poder, cujo diagnóstico da burocratização estava substancialmente correcto, embora limitado pela sua própria perspectiva económica. O seu exílio e subsequente assassinato no México seriam o trágico epílogo de um líder que tinha compreendido a degeneração do regime.
Sayers e Kahn descrevem uma realidade muito diferente. Para estes, Trotsky não era apenas um adversário político, mas o líder de uma conspiração internacional que recebia financiamento da Reichswehr alemã através de Krestinsky e mantinha contactos com os serviços de informação britânicos e japoneses. O livro documenta, citando os testemunhos dos próprios colaboradores de Trotsky nos Julgamentos de Moscovo, que este planeava regressar ao poder com ajuda estrangeira em troca de concessões territoriais (Ucrânia, Extremo Oriente) e económicas.
A partir de 1923, Trotsky, através de Krestinsky, recebeu aproximadamente 250.000 marcos de ouro por ano da Reichswehr alemã em troca de relatórios de inteligência. Este acordo continuou até 1930 e foi renovado em 1931, quando o filho de Trotsky, Leon Sedov, se estabeleceu em Berlim como contacto com os serviços secretos nazis. Christian Rakovsky, agente trotskista e antigo embaixador em Londres e Paris, estabeleceu contactos com o serviço secreto japonês em Tóquio, em 1934, oferecendo em troca relatórios sobre a situação interna na URSS.
Trotsky estava disposto a ceder a Ucrânia à Alemanha e o Extremo Oriente ao Japão para obter ajuda externa. Isto não é uma invenção de Sayers e Kahn; a carta de Trotsky a Radek, citada no livro, detalha estas concessões.
A "Quarta Internacional" de Trotsky não era uma organização revolucionária, mas antes um instrumento da quinta coluna do Eixo. Sayers e Kahn não têm de "inventar" esta ligação; derivam-na das confissões judiciais dos próprios colaboradores de Trotsky e dos documentos dos serviços secretos da época.
Trotsky estava disposto a ceder a Ucrânia à Alemanha e o Extremo Oriente ao Japão em troca de ajuda externa. O "Pacto Germano-Soviético"
Volodia apresenta o Pacto Germano-Soviético de 1939 como uma "colaboração" com o nazismo que selou a renúncia à revolução mundial e permitiu a Hitler lançar a sua guerra contra a Europa.
No entanto, o texto publicado pelo Movimento Socialista omite o
facto de o pacto não ter sido uma escolha ideológica, mas uma manobra defensiva forçada pelo fracasso das potências ocidentais em formar uma aliança antifascista. Sayers e Khan (Documento) O livro examina a forma como a Grã-Bretanha e a França sabotaram repetidamente as propostas soviéticas de segurança colectiva, preferindo uma política de apaziguamento para encorajar a expansão de Hitler para leste (a "Drang nach Osten"). Cita os discursos de Estaline em 1939, nos quais alertava que a política de "não intervenção" do Ocidente visava desgastar a Alemanha e a URSS uma contra a outra.
Neste contexto, o Pacto Molotov-Ribbentrop foi uma manobra desesperada para ganhar tempo e preparar defesas contra o inevitável ataque nazi. A URSS não "colaborou" com o nazismo; assinou um pacto de não agressão que lhe permitiu recuperar territórios estratégicos (os Estados Bálticos, a Bessarábia) e reposicionar a sua fronteira defensiva. A quebra do pacto por Hitler em 1941 não demonstra que a URSS confiava nele, mas sim que a guerra era inevitável e que o pacto apenas serviu para adiá-la.
Internacionalismo Proletário: Traição ou Defesa?
Volodia defende que a Komintern, sob Estaline, se tornou um instrumento da política externa soviética e que a política da Frente Popular e o pacto com Hitler significaram uma renúncia ao internacionalismo.
Sayers e Kahn invertem este argumento. Para eles, o objetivo da União Soviética, especialmente durante a Segunda Guerra Mundial, era derrotar o fascismo, que era a principal ameaça à humanidade. A política da Frente Popular não foi uma traição, mas uma estratégia para unir todas as forças contra o Eixo. Neste contexto, o dever dos comunistas não era instigar uma revolução prematura que pudesse beneficiar os nazis, mas sim consolidar a aliança antifascista. A prioridade era a sobrevivência contra o nazismo, e não uma revolução imediata.
Para Sayers e Kahn, o internacionalismo proletário não se mede pela pureza doutrinal, mas pela capacidade de defender a existência do Estado operário contra a agressão imperialista. A URSS, cercada e isolada, precisava de garantir a sua sobrevivência para que o socialismo tivesse futuro. O facto de a historiografia subsequente ter apresentado esta defesa como “nacionalismo” é, para eles, uma distorção da realidade e uma falácia que as agências noticiosas ocidentais repetiram até à exaustão: a URSS não se tornou um Estado nacionalista; era um Estado operário que, por necessidade, dava prioridade à sua sobrevivência perante um inimigo avassalador.
O movimento socialista revela a sua verdadeira face.
A questão de uma ou outra abordagem não é inocente.
Uma das lições fundamentais do materialismo histórico é que o conhecimento não é neutro: toda a interpretação da história é mediada por interesses de classe. A narrativa do “totalitarismo” — que equipara o estalinismo e o fascismo como duas formas da mesma “tirania” — foi construída pelos ideólogos liberais ocidentais durante a Guerra Fria precisamente para deslegitimar a Revolução Russa e, por extensão, todas as aspirações revolucionárias. Autores como Hannah Arendt, Robert Conquest e Richard Pipes não escreveram a partir de uma posição de objectividade académica, mas sim a partir dos interesses de classe da burguesia ocidental para desacreditar o socialismo.
O texto de Volodia, embora apresentado como uma crítica "da esquerda", reproduz o cerne desta narrativa. Ao defender que o estalinismo foi uma "degeneração" que transformou a ditadura do proletariado numa autocracia, Volodia aceita a premissa fundamental da historiografia burguesa: que o socialismo, na sua forma actual, é necessariamente autoritário e que a Revolução Russa foi, na melhor das hipóteses, um ideal traído.
A dialéctica desta operação é clara: ao criticar Estaline pela "esquerda", Volodia legitima a crítica burguesa ao socialismo. O seu artigo é recebido favoravelmente por editoras académicas capitalistas, por departamentos de história em universidades ocidentais e pelos órgãos de comunicação que promovem esta mesma narrativa há décadas. Não é por acaso que autores como Conquest, Cohen ou os arquivos vazados da NKVD são citados por Volodia como fontes; são estas as mesmas fontes que alimentam a historiografia anticomunista.
O fenómeno que estamos a analisar não é novo. A historiografia que apresenta o estalinismo como uma “degeneração” do leninismo tem uma função ideológica precisa: desativar o potencial revolucionário do marxismo. Se a única experiência histórica de construção do socialismo foi, segundo esta narrativa, uma tirania burocrática, então a conclusão implícita é que o socialismo é inviável ou, na melhor das hipóteses, que precisa de ser radicalmente reformado para ser compatível com a “democracia liberal”.
A publicação do “movimento socialista” não é inocente. Responde a uma dinâmica mais profunda: a adaptação ao clima ideológico dominante nas sociedades capitalistas avançadas. Num contexto em que a crítica ao “totalitarismo” é o credo oficial dos media.
Nos media e nas universidades, um texto que reforça esta crítica da esquerda é visto como "respeitável" e "rigoroso".
Esta operação tem consequências políticas concretas:
Em primeiro lugar, ao aceitar a narrativa do "totalitarismo", legitima-se a política externa das potências ocidentais. Se a URSS era um "império do mal", a Guerra Fria não foi uma agressão imperialista, mas uma "defesa da liberdade". Os milhões de mortes nos países do Sul Global, as ditaduras apoiadas pelos Estados Unidos, a corrida aos armamentos que hipotecou o desenvolvimento humano: tudo se justifica pela necessidade de "conter o comunismo".
Segundo, ao apresentar o estalinismo como uma "degeneração" inevitável, desmobiliza-se a classe operária. Se o socialismo acaba sempre em tirania, porquê lutar por ele? A conclusão prática desta narrativa é o reformismo: em vez de rompermos com o capitalismo, devemos reformá-lo a partir de dentro, humanizá-lo. É precisamente esta a política dos partidos sociais-democratas e da "esquerda" institucional que, nas últimas décadas, tem capitulado sistematicamente perante o neoliberalismo.
Em terceiro lugar, ao concentrar as críticas nos “erros” da liderança soviética, ignora-se a luta de classes internacional. A URSS foi o único Estado que, durante décadas, ofereceu um contrapeso real ao poder do capital. Ela prestou apoio material aos movimentos de libertação nacional em África, Ásia e América Latina. Foi a razão pela qual o capitalismo foi forçado a fazer concessões à classe trabalhadora no Ocidente. Apresentar a URSS como uma mera “tirania” é apagar da história a existência de um Estado operário que, com todas as suas contradições, foi o principal inimigo do capital durante grande parte do século XX.
Textos como este são o prelúdio para a conciliação com o capital. Porque quem adopta a narrativa do inimigo acaba, mais cedo ou mais tarde, por adoptar as suas políticas. A história do movimento operário está repleta de exemplos de organizações que começaram com “críticas justas” e acabaram por colaborar com o sistema que afirmavam querer derrubar.
Fontes: GEDAR e A Grande Conspiração
https://mpr21.info/el-movimiento-socialista-levanta-las-banderas-del-troskysmo/